MESTRE BIMBA E MESTRE PASTINHA: ORIGENS E FORMAÇÃO, A FORJA DOS MESTRES !

 

DOSSIÊ COMPLETO, O LEGADO:


PRÉVIA EMVIDEO:

Pesquisador Responsável: Cristiano dos Santos Rocha.


São Paulo - SP

JANEIRO DE 2026


SUMÁRIO:

1. INTRODUÇÃO: O CENÁRIO SÓCIO-HISTÓRICO DA CAPOEIRA NA BAHIA PÓS-ABOLIÇÃO.

2. ORIGENS E FORMAÇÃO: A FORJA DOS MESTRES NAS RUAS DE SALVADOR.

    2.1 Vicente Ferreira Pastinha: O Menino, a Marinha e a Estética da Pintura

    2.2 Mestre Bimba: O Batuqueiro e a Criação da Luta Regional Baiana

3. FILOSOFIA E METODOLOGIA: A BIFURCAÇÃO EPISTEMOLÓGICA (ANGOLA VS. REGIONAL).

    3.1 Mestre Bimba: A Eficiência, a Ciência e a Desmarginalização

        3.1.1 Metodologia Científica e as Sequências de Ensino

        3.1.2 A Eficiência do Combate

    3.2 Mestre Pastinha: A Mandinga, a Ancestralidade e o Cosmo de Exu

        3.2.1 "Tudo o que a Boca Come": A Filosofia de Exu

        3.2.2 A Resistência da Tradição Angola

4. INSTITUCIONALIZAÇÃO E INOVAÇÃO: A ACADEMIA COMO PALCO POLÍTICO.

    4.1 Mestre Bimba e a Legitimação Social pelo Estado Novo

    4.2 Mestre Pastinha e a Fundação do CECA: A Organização da Resistência

5. O DECLÍNIO E O DESCASO PÚBLICO: A TRAGÉDIA DOS MESTRES.

    5.1 Mestre Bimba: A Mágoa, o Exílio e a Morte em Goiânia

    5.2 Mestre Pastinha: O Despejo, a Cegueira e o Abrigo

6. SUCESSÃO E UNIDADE: A SÍNTESE DIALÉTICA.

    6.1 Os Herdeiros e a Globalização   6.2 Conclusão: Raízes e Tronco de uma Só Árvore

7. CRÉDITOS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

Introdução: O Cenário Sócio-Histórico da Capoeira na Bahia Pós-Abolição.

Para compreender a magnitude dos legados de Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba) e Vicente Ferreira Pastinha (Mestre Pastinha), é imperativo situar suas existências no tecido social da Bahia da Primeira República e do início da Era Vargas. A capoeira, ao final do século XIX, encontrava-se em uma encruzilhada existencial. O Código Penal de 1890, em seu artigo 402, criminalizava a prática da "capoeiragem", associando-a à desordem, à vadiagem e à violência de rua. Salvador, uma cidade marcada pela forte presença negra e pelas tensões do pós-abolição, era o palco onde essa manifestação cultural lutava para não ser extinta pela repressão policial e pelo projeto de "branqueamento" social vigente.

Neste cenário hostil, a capoeira sobrevivia na clandestinidade, nas docas, nas festas de largo e nos guetos. Ela era vista pelas elites como uma patologia social, uma herança bárbara que impedia a modernização do país. É neste contexto de resistência e marginalidade que surgem duas figuras que, através de caminhos metodológicos e filosóficos distintos, salvariam a capoeira da extinção e a elevariam à categoria de símbolo nacional. Este dossiê propõe uma análise exaustiva de suas vidas, filosofias e impactos, demonstrando como, em última análise, suas divergências formaram a unidade dialética que sustenta a capoeira contemporânea.

2. Origens e Formação: A Forja dos Mestres nas Ruas de Salvador.

As origens de Mestre Bimba e Mestre Pastinha são cruciais para entender suas distintas escolas de capoeira. Ambos vivenciaram a capoeira de rua baiana na juventude, uma prática marginalizada e frequentemente reprimida pela polícia.

As vidas e contextos sociais diferentes de Mestre Bimba e Pastinha moldaram suas experiências, gerando duas vertentes distintas da capoeira: a Regional de Bimba e a Angola de Pastinha.

Bimba buscou a sistematização e o reconhecimento social da capoeira, criando um método e regulamento. Pastinha, focado na tradição e filosofia ancestral, preservou a "Capoeira-Mãe" (Angola), enfatizando malícia, jogo rasteiro e musicalidade ritualística. As trajetórias dos mestres refletem diretamente as ideologias e práticas que eles consolidaram.

2.1 Vicente Ferreira Pastinha: O Menino, a Marinha e a Estética da Pintura.

Vicente Ferreira Pastinha nasceu em 1889, ano emblemático que marcou a transição do Império para a República no Brasil. Filho de um comerciante espanhol e de uma mulher negra baiana, Pastinha personificava em sua própria genética as tensões raciais de Salvador.

A Iniciação com Benedito:

A entrada de Pastinha no universo da capoeiragem não se deu por recreação, mas por uma necessidade premente de autodefesa, um traço comum à história da capoeira. Relatos históricos e a própria narrativa do mestre indicam que, aos 10 anos de idade, ele era franzino e sofria perseguições constantes de um rival mais forte em seu bairro. Um africano de nome Benedito, observando a desigualdade dos confrontos, chamou o menino e ofereceu-lhe uma alternativa à força bruta.

Benedito não ensinou Pastinha a bater com força, mas a usar a força do adversário contra ele mesmo. Ensinou-lhe que "o tempo que se perde na escola, ganha-se na vida", uma máxima que apontava para a capoeira não como esporte, mas como uma tecnologia de sobrevivência nas ruas hostis da Bahia. Benedito transmitiu a Pastinha a capoeira em sua forma "angola" (embora o termo se consolidasse mais tarde), caracterizada pela malícia, pelo jogo baixo e pela conexão com a ancestralidade africana.

A Disciplina Naval e o Olhar do Pintor:

Aos 12 anos, em 1902, Pastinha ingressou na Escola de Aprendizes de Marinheiros. Este período foi crucial para a formação de sua personalidade e pedagogia. Na Marinha, ele teve contato com a disciplina hierárquica, a alfabetização e, crucialmente, com outras formas de combate, como a esgrima e o manuseio de armas. A esgrima, com seus conceitos de tempo, distância e contra-ataque, influenciou sutilmente sua compreensão estratégica do jogo de capoeira.

Após deixar a Marinha em 1909, Pastinha exerceu diversos ofícios, incluindo o de pintor. A sensibilidade artística desenvolvida na pintura foi fundamental para a sua visão da capoeira. Pastinha não via o jogo apenas como luta, mas como uma expressão estética. Para ele, a roda era uma tela onde os corpos desenhavam movimentos. Essa busca pela plasticidade e pela elegância tornou-se uma marca registrada da Capoeira Angola sob sua tutela. Durante décadas, ele manteve a chama da capoeira acesa de forma discreta, "vadiava" nas rodas de rua, mas sem uma academia formal, respeitando a natureza clandestina da prática até sua "redescoberta" na década de 1940.

2.2 Mestre Bimba: O Batuqueiro e a Criação da Luta Regional Baiana.

Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, nasceu em 1900, no Bairro do Engenho Velho de Brotas. Diferente de Pastinha, cuja formação foi marcada pela observação e pela defesa, Bimba cresceu em um ambiente de confronto físico direto e intenso.

A Herança do Batuque:

A influência mais determinante na formação marcial de Bimba foi seu pai, Luiz Cândido Machado, um renomado campeão de Batuque. O Batuque era uma luta de origem africana, extremamente popular na Bahia do século XIX, mas que, ao contrário da capoeira, focava exclusivamente no desequilíbrio e na traumatologia dos membros inferiores.

Característica

Capoeira Tradicional (Angola)

Batuque

Objetivo

Jogo lúdico, dissimulação, cabeçadas, rasteiras.

Derrubar o oponente violentamente.

Membros Usados

Todo o corpo (mãos para apoio, pés para ataque).

Apenas as pernas para ataque e defesa.

Natureza

Ritualística, contínua, musical.

Duelo de força, resistência e impacto.

Violência

Controlada pela malícia.

Alta (fraturas eram comuns).


A formação inicial de Mestre Bimba foi profundamente moldada pela herança familiar de luta, absorvendo de seu pai, Luís Cândido Machado, capoeirista e praticante de Batuque, a agressividade e potência física dessa modalidade. O Batuque, luta de contato direto e rasteiro, popular no Recôncavo Baiano, focava na força, equilíbrio e na projeção do adversário ao solo. Essa base paterna ensinou a Bimba a eficácia do combate corpo a corpo, o uso do corpo como alavanca e a habilidade de desequilibrar e imobilizar o oponente.


A formação de Mestre Bimba no Batuque foi crucial para a Capoeira Regional. Ele aprendeu a "banda" (golpe de projeção) e desenvolveu técnica e força. Bimba uniu a malandragem da Capoeira Angola com a agressividade e os golpes de projeção do Batuque, estruturando a arte como esporte de combate.


A Gênese da Regional:

Na década de 1920, Bimba diagnosticou que a capoeira praticada em Salvador estava "perdendo o veneno". Para ele, a capoeira havia se tornado excessivamente folclórica, uma dança para turistas ou uma brincadeira de vadios que havia esquecido sua vocação guerreira. Sua resposta a esse declínio foi uma inovação radical: a fusão.

Bimba pegou a base da capoeira tradicional (a ginga, o aú, o rolê) e injetou a eficácia biomecânica do Batuque. Ele eliminou movimentos que considerava supérfluos ou perigosos para o praticante em uma situação real de defesa pessoal. A essa nova síntese, ele adicionou movimentos traumáticos de mão (galopante, godeme - este último batizado ironicamente após um marinheiro americano gritar "God damn!" ao receber o golpe).

Em 1928, ele formalizou esse sistema. No entanto, ciente do estigma penal que a palavra "capoeira" carregava, ele batizou sua criação de "Luta Regional Baiana". O nome era uma estratégia política brilhante: "Luta" denotava seriedade e esporte; "Regional" afirmava sua raiz local e identidade; "Baiana" conectava-se ao orgulho do estado. Bimba não estava apenas criando um estilo; ele estava criando um produto cultural capaz de dialogar com a modernidade.

3. Filosofia e Metodologia: A Bifurcação Epistemológica (Angola vs. Regional).

A cisão entre Capoeira Angola (Mestre Pastinha) e Regional é um profundo conflito filosófico e estratégico de resistência. A Angola, ligada às raízes africanas e resistência marginalizada, usa a dissimulação e o ludismo (movimentos lentos disfarçam a potência ancestral) para preservar a memória, dignidade e tradição do corpo negro.

A Capoeira Regional, criada por Mestre Bimba, modernizou-se e se sistematizou para ganhar legitimidade no meio urbano. Focada na marcialidade e performance esportiva, buscava desenvolver o corpo de forma eficiente, combatendo o estigma do "capoeira malandro" e garantindo a sobrevivência da prática como ferramenta de desenvolvimento físico e moral.

A divisão entre Angola e Regional reflete duas visões do papel do corpo negro na sociedade brasileira: a Angola preserva a memória e a resistência cultural (corpo como artefato político), e a Regional foca na profissionalização e inserção social por meio da performance (corpo como ferramenta de ascensão). Ambas são estratégias de resistência cultural.


3.1 Mestre Bimba: A Eficiência, a Ciência e a Desmarginalização.

A filosofia de Bimba era pragmática, higienista e voltada para a ascensão social. Ele percebeu que, para a capoeira sobreviver, ela precisava deixar de ser "coisa de malandro" e tornar-se "ginástica nacional".

Metodologia Científica e as Sequências de Ensino:

Bimba foi o primeiro a sistematizar o ensino da capoeira. Antes dele, aprendia-se por osmose, "olhando e apanhando". Bimba racionalizou o processo pedagógico, criando um método que podia ser ensinado em massa, inclusive para a classe média branca e universitária que ele desejava atrair.


  1. As 8 Sequências de Ensino: Bimba criou oito sequências lógicas de ataque e defesa que serviam como o "abecedário" do aluno. Eram movimentos encadeados (ex: Meia-lua de frente, cocorinha, negativa, rolê) que o aluno repetia exaustivamente até a mecanização do reflexo.

  • Insight: As sequências funcionavam como katas no karatê, permitindo que a capoeira fosse ensinada em academias fechadas, longe da imprevisibilidade da rua.

  1. Cintura Desprezada: Para desenvolver a agilidade, a coragem e a capacidade de cair sem se machucar (o "corpo fechado" moderno), Bimba criou a sequência de "balões" ou projeções. O aluno era jogado para o alto e devia cair em pé. Isso exigia uma colaboração intensa entre os parceiros e preparava o corpo para o trauma.

  1. Código de Ética: Bimba impôs regras rígidas em sua academia. Era proibido beber, fumar ou demonstrar "vadiação" fora da roda. Ele exigia que seus alunos trabalhassem ou estudassem. A capoeira Regional era um projeto de civilidade e disciplina.

A Eficiência do Combate:

Para Bimba, a beleza da capoeira residia na sua eficácia. "Capoeira é para homem, menino e mulher, só não é para quem não quer", dizia ele, mas ressaltava que ela devia funcionar na briga real. Ele desafiava lutadores de outras modalidades para provar a superioridade da Regional, vencendo diversos combates e legitimando sua arte como defesa pessoal.


3.2 Mestre Pastinha: A Mandinga, a Ancestralidade e o Cosmo de Exu.

Enquanto Bimba buscava a legitimação pela modernidade e pelo esporte, Pastinha buscava a legitimação pela profundidade filosófica e pela fidelidade às raízes africanas.

"Tudo o que a Boca Come":

  • A famosa frase de Pastinha, "Capoeira é mandinga, é manha, é malícia, é tudo o que a boca come", liga-se à teologia de Exu, a "boca do mundo". Filosoficamente, Pastinha via a capoeira como uma forma de digerir e transformar a vida, absorvendo o bem e o mal, o sagrado e o profano. O capoeirista deve estar pronto para transformar qualquer experiência em energia vital.

  • A Mandinga: Para Pastinha, a mandinga é uma inteligência tática e espiritual, mais que feitiçaria. É a arte de dissimular, de preparar o ataque sorrindo, controlando espaço e tempo. É a "falsidade" estratégica vital para a sobrevivência do oprimido em um mundo desigual.

A Resistência da Tradição Angola:

Pastinha recusou a "esportivização". Ele manteve a orquestra completa (três berimbaus, dois pandeiros, atabaque, reco-reco e agogô), a lentidão cadenciada do jogo (que esconde a velocidade do ataque repentino) e a ritualística da Chamada.


  • A Chamada: Este ritual, exclusivo da Angola, onde o jogo para e os capoeiristas caminham juntos ou executam movimentos sincronizados, é um teste de atenção e mandinga. Pastinha ensinava que o perigo maior não está no golpe explícito, mas no momento de aparente calmaria.

Aspecto

Capoeira Regional (Bimba)

Capoeira Angola (Pastinha)

Foco

Luta, eficiência, rapidez, desequilíbrio.

Ludicidade, estratégia, ritual, ancestralidade.

Pedagogia

Sequências mecânicas, repetição, exame.

Observação, intuição, correção individualizada.

Música

Ritmo acelerado (São Bento Grande), foco no Berimbau.

Ritmo cadenciado, orquestra completa, ladainhas longas.

Espiritualidade

Pragmática (disciplina cristã/social).

Mística (conexão com Candomblé/Cosmogonia Africana).

4. Institucionalização e Inovação: A Academia como Palco Político.

A transição da rua para a academia foi o grande movimento sociológico da capoeira no século XX. Ambos os mestres foram arquitetos dessa institucionalização, cada um moldando o espaço à sua imagem.

4.1 Mestre Bimba e a Legitimação Social pelo Estado Novo.

Mestre Bimba foi um político hábil. Ele entendeu que, para retirar a capoeira do Código Penal, precisava aliar-se ao discurso nacionalista de Getúlio Vargas. Em 1937, ele conseguiu registrar sua escola, o Centro de Cultura Física Regional, na Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública de Salvador.

  • O Reconhecimento Oficial: Este registro foi um marco histórico. Pela primeira vez, a capoeira era reconhecida pelo Estado não como crime, mas como "Cultura Física". Bimba apresentou a capoeira para Getúlio Vargas, que a declarou "o único esporte verdadeiramente nacional" (embora haja debates históricos sobre a exatidão desse encontro, a narrativa serviu para legitimar a prática).

  • Rituais Acadêmicos: Para dar respeitabilidade à sua escola, Bimba criou rituais inspirados no ensino formal:

Batizado: O momento solene de entrada do calouro na roda, onde ele recebia um apelido, marcando seu novo nascimento na comunidade.

Formatura e Lenços: Bimba instituiu um sistema de graduação baseado em lenços de seda (inspirados nos antigos capoeiristas que usavam lenços no pescoço para proteção contra navalhas).

  • Azul: Aluno Formado.

  • Vermelho: Aluno Especializado (que completou o curso de emboscada na mata).

  • Amarelo: Curso de Armas.

  • Branco: Mestre.

Uniforme: O uso de calças e camisas brancas (ou torso nu), associadas à higiene, à medicina e à pureza, rompia com a imagem suja do malandro de rua.

4.2 Mestre Pastinha e a Fundação do CECA: A Organização da Resistência.

Se Bimba organizou a capoeira para avançar, Pastinha organizou-a para a preservar. Em 1941, incentivado por seus pares e alunos que viam a tradição angoleira ameaçada pela explosão da Regional, Pastinha fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA).

  • Localização Simbólica: A sede do CECA no Casarão nº 19 do Largo do Pelourinho tornou-se um templo da cultura afro-brasileira. Localizado no coração histórico de Salvador, o CECA atraía intelectuais, turistas e artistas que buscavam a "autêntica" alma da Bahia.

  • Identidade Visual (Preto e Amarelo): Pastinha inovou ao instituir um uniforme distintivo para os angoleiros: calças pretas e camisas amarelas.

Insight Sociológico: Essas cores não eram aleatórias; eram as cores do Ypiranga Futebol Clube, time fundado em 1906 que, diferentemente dos clubes de elite, aceitava negros e operários. Ao adotar as cores do "time do povo", Pastinha enviava uma mensagem de solidariedade de classe e raça. O uniforme preto e amarelo tornou-se um estandarte de orgulho negro e popular.

  • A Intelectualidade Orgânica e o Livro de 1965: Mestre Pastinha não se limitou à oralidade. Em 1965, ele publicou o livro Capoeira Angola, onde sistematizou seu pensamento.

Nesta obra, ele defendeu teses sobre a origem africana (negando a invenção puramente brasileira defendida por alguns regionalistas da época para "suavizar" a negritude) e registrou a filosofia da mandinga. Pastinha tornou-se, assim, um "intelectual orgânico" (na acepção de Gramsci), produzindo teoria a partir da práxis subalterna. Sua amizade com Jorge Amado, que o descreveu como "uma das figuras mais notáveis da Bahia", ajudou a projetar a Angola internacionalmente.

5. O Declínio e o Descaso Público: A Tragédia DOS MESTRES.

Mestre Bimba e Mestre Pastinha dedicaram suas vidas à Capoeira, elevando-a nacional e internacionalmente, mas o fim de suas jornadas expõe a ingratidão institucional e o racismo estrutural que marcam a sociedade brasileira.

Mestre Bimba (Capoeira Regional) e Mestre Pastinha (Capoeira Angola) não tiveram o devido reconhecimento ou amparo em vida, apesar da valorização cultural que proporcionaram. Bimba buscou exílio em Goiás em 1974 e morreu desvalorizado em sua terra. Pastinha, o filósofo da Capoeira Angola, terminou cego e na miséria após ser despejado de seu centro no Pelourinho, símbolo de resistência.

O racismo estrutural marginalizou e empobreceu Mestre Bimba e Pastinha, pilares da cultura brasileira e guardiões de patrimônios imateriais. O descaso com que foram tratados no final de suas vidas reflete uma sociedade que celebra superficialmente a cultura afro-brasileira, mas nega dignidade e reconhecimento material a seus criadores.

5.1 Mestre Bimba: A Mágoa, o Exílio e a Morte em Goiânia

Na década de 1970, Mestre Bimba, apesar da fama, enfrentava problemas financeiros e se sentia desrespeitado na Bahia. Ele via a capoeira ser explorada pelo turismo, mas recebia pouco apoio financeiro para sua academia.

O Êxodo para o Planalto Central:

Sentindo-se traído e seduzido por promessas de apoio, estrutura e reconhecimento feitas por um ex-aluno (Oswaldo de Souza) e autoridades de Goiás, Bimba tomou a dolorosa decisão de deixar Salvador em 1973.

  • Em depoimentos da época, Bimba expressou sua mágoa: "Não vou para Goiânia para viver, vou para morrer. A Bahia não me quer". Sua saída foi um protesto silencioso contra a exploração cultural sem contrapartida social.

A Morte Longe de Casa:

A esperada vida melhor em Goiânia revelou-se ilusória. Longe de sua comunidade e sem o apoio financeiro almejado, Bimba entrou em profunda tristeza, associada ao "banzo". Em 5 de fevereiro de 1974, um ano após sua partida, Mestre Bimba faleceu em Goiânia, vítima de um derrame cerebral. Sua morte tardiamente gerou comoção na Bahia, para onde seu corpo foi transladado, mas o falecimento do criador da Luta Regional no exílio permanece uma mancha na história cultural do estado.


5.2 Mestre Pastinha: O Despejo, a Cegueira e o Abrigo.

Mestre Bimba (Capoeira Regional) buscou reconhecimento em Goiânia, após ser negado na Bahia, onde se exilou e morreu. Já Mestre Pastinha (Capoeira Angola) teve um fim mais trágico, vivendo abandono e miséria total em Salvador, sua cidade.

O contraste entre os destinos de Mestre Bimba e Pastinha ilustra as dificuldades da capoeira no século XX. Bimba buscou o reconhecimento formal pela modernização, distanciando-se das raízes. Pastinha, fiel à Angola, foi vítima de exílio social: sua academia foi tomada sob falsa promessa de reforma, e ele morreu cego, doente e na miséria, testemunhando o descaso. O fim de Bimba foi o exílio geográfico; o de Pastinha, o abandono em sua própria terra.

O Despejo do Pelourinho:

Em 1971, a Prefeitura de Salvador e o IPAC (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural) iniciaram um processo de reforma do Pelourinho. Sob a promessa de que o prédio seria restaurado e devolvido, Mestre Pastinha foi despejado de sua academia histórica no Casarão nº 19.


  • A Traição: A promessa nunca foi cumprida. O prédio foi reformado e entregue a outros fins (restaurante/loja), deixando o mestre e seus alunos sem teto. Velho, já cego (devido a uma catarata não tratada adequadamente e outras complicações) e sem recursos, Pastinha foi relegado ao ostracismo.

O Quartinho e o Abrigo:

Pastinha passou a viver em um quarto minúsculo e insalubre no Pelourinho, sobrevivendo graças aos acarajés vendidos por sua esposa, Dona Maria Romélia, e à caridade de poucos discípulos. Relatos descrevem o mestre sentado em sua cama, cego, tocando berimbau e chorando a perda de sua academia.

Seus últimos dias foram passados no Abrigo D. Pedro II, um asilo público em Salvador, destinado aos indigentes. Foi lá, longe da glória das rodas e dos turistas que um dia o aplaudiram, que Vicente Ferreira Pastinha faleceu em 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, vítima de uma parada cardíaca fatal. Ele morreu como um indigente civil, mas como um rei cultural, consciente de sua eternidade: "Ninguém toma a minha capoeira. O que eu tenho, eu levo comigo".

6. Sucessão e Unidade: A Síntese Dialética.

A perda dos mestres Bimba (Regional) e Pastinha (Angola) impulsionou a capoeira. Longe de ser o fim, suas ausências catalisaram a expansão global da capoeira, transformando a manifestação cultural baiana em um fenômeno mundial.

A diáspora e o crescimento da capoeira levaram a um movimento crucial de reconciliação e convergência entre Regional e Angola. As rivalidades históricas foram suavizadas, buscando-se não a fusão, mas o reconhecimento mútuo e a valorização da complementaridade. As vertentes passaram a ser vistas como faces da mesma arte-luta, essenciais para a compreensão completa da capoeira. O legado dos mestres Mestre Bimba e Pastinha foi honrado pela difusão das técnicas e pela promoção de uma visão unificada e respeitosa da capoeira.

6.1 Os Herdeiros e a Globalização.

A dispersão dos alunos de Bimba e Pastinha foi o motor da globalização da capoeira.

  • A Diáspora da Regional: Alunos formados por Bimba, como Mestre Itapoan, Mestre Acordeon, Mestre Vermelho 27, Mestre Nenel (seu filho) e Mestre Camisa (fundador do Abadá Capoeira), levaram a metodologia da Regional para o Sudeste do Brasil, Europa e Estados Unidos. A estrutura pedagógica de Bimba facilitou a exportação da arte, tornando-a acessível a estrangeiros.

  • A Resistência da Angola: Discípulos como Mestre João Grande e Mestre João Pequeno foram fundamentais para evitar a extinção da Angola diante do domínio comercial da Regional nas décadas de 70 e 80. João Pequeno manteve o núcleo do CECA vivo (em outros endereços), enquanto João Grande levou a Angola para Nova York, ganhando reconhecimento internacional e doutorados honoris causa.

6.2 Conclusão: Raízes e Tronco de uma Só Árvore

Historicamente, a narrativa popular fomentou uma rivalidade acirrada entre "angoleiros" e "regionais". Contudo, uma análise historiográfica aprofundada, corroborada pela visão dos velhos mestres e pelas homenagens contemporâneas (como as músicas do grupo Abadá Capoeira que exaltam ambos), aponta para a unidade essencial da prática.

Podemos utilizar a analogia botânica para concluir este dossiê:

  • Mestre Pastinha representa as Raízes: Profundas, invisíveis, conectadas à terra, à ancestralidade e aos nutrientes da história. Sem a raiz (Angola), a árvore não tem sustentação, perde sua identidade e torna-se apenas uma ginástica vazia de sentido. A mandinga e a filosofia de Exu são a seiva bruta que alimenta a arte.

  • Mestre Bimba representa o Tronco: Robusto, visível, vertical. O tronco projeta a árvore para o alto (o mundo), oferece estrutura e permite que os frutos (a capoeira contemporânea) sejam colhidos longe do solo. A metodologia e a eficiência da Regional permitiram que a capoeira resistisse às tempestades sociais e ganhasse respeitabilidade.

Como concluem os historiadores e os próprios capoeiristas na roda: "A capoeira é uma só". Ela é um sistema dinâmico onde a tradição e a inovação não se anulam, mas tensionam-se criativamente. O legado de Bimba e Pastinha não é a divisão, mas a completude. Eles ofereceram duas respostas geniais à mesma pergunta: "Como o negro sobrevive e afirma sua humanidade no Brasil?". Juntas, essas respostas formam o patrimônio imaterial da humanidade que hoje ecoa em mais de 150 países.

7. Créditos e Referências Bibliográficas

Documento elaborado por: Cristiano dos Santos Rocha.

Este relatório foi produzido e consolidado por Cristiano Dos Santos Rocha, pesquisador devidamente cadastrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) sob o registro de Pesquisador e Capoeirista (Treinel / Instrutor Alemão). Rocha é um membro ativo e instrutor das Organizações Onças / Ilha de itapuã, instituições dedicadas à salvaguarda da capoeira como patrimônio cultural imaterial. Sua atuação une a vivência prática nas rodas à documentação sistemática da história e do impacto da capoeira.


Referências Utilizadas:

  1. ACUNA, Jorge Mauricio Herrera. Maestrias de Mestre Pastinha: um intelectual da cidade gingada. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2017. 1211

  2. ALMEIDA, Raimundo César Alves de (Mestre Itapoan). Bimba: perfil do mestre. Salvador: Centro de Cultura Física Regional, 1982. 345

  3. CAMPOS, Hélio. Capoeira na Universidade: uma trajetória de resistência. Salvador: EDUFBA, 2001. 6777

  4. CAPOEIRA, Nestor. Capoeira: pequeno manual do jogador. Rio de Janeiro: Record, 1998. 8

  5. DECANIO FILHO, Angelo. A herança de Mestre Bimba. Salvador: Coleção São Salomão, 1996. 9

  6. FUNDAÇÃO MESTRE BIMBA. Biografia de Mestre Bimba e Mestre Nenel. Disponível em: fundacaomestrebimba.org.br. 10

  7. MAGALHÃES, Paulo. Tudo que a boca come: A capoeira e suas gingas na modernidade. Tese de Doutorado, UFBA. 1111

  8. PASTINHA, Vicente Ferreira. Capoeira Angola. Salvador: Escola Gráfica de Aprendizes, 1965. 11212

  9. REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Salvador: Itapuã, 1968.

  10. SANTOS, Marcos Cezar. Mestre Pastinha: o guardião da capoeira angola. Repositório UFBA. 1313

  11. SODRÉ, Muniz. Mestre Bimba: corpo de mandinga. Rio de Janeiro: Manati, 2002. 7

  12. VELHOS MESTRES. Acervo digital sobre Mestre Pastinha e Mestre Bimba. Disponível em: velhosmestres.com. 14


Referências citadas:

  1. Mestre Pastinha e a Capoeira Angola | PDF | Sociologia | Antropologia - Scribd, acessado em janeiro 6, 2026, https://pt.scribd.com/document/692749887/Tese-Maestrias-de-Mestre-Pastinha

  2. Maestrias de Mestre Pastinha: um intelectual da cidade gingada - Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, acessado em janeiro 6, 2026, https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-18042018-100742/pt-br.php

  3. Mestre Itapoan: 60 anos de Capoeira Regional - YouTube, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=60tJ0evyqDE

  4. Turma de Bimba no Instituto Mestre Acordeon. - YouTube, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=PL7aJlLpdqU

  5. O legado do Mestre Itapoan - YouTube, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=ArPx7hfJraQ

  6. Capoeira Regional: Método de Ensino de Mestre Bimba | PDF | Aprendizado - Scribd, acessado em janeiro 6, 2026, https://pt.scribd.com/document/375301579/A-sequencia-de-mestre-Bimba-um-jogo-de-ensino-aprendizagem

  7. 10 MESTRE BIMBA: CRIAÇÃO E RESISTÊNCIA AFRO- DESCENDENTE, acessado em janeiro 6, 2026, https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/11005/2/Helio%20Campos%20Parte%202.pdf

  8. Mestre Bimba: o fundador e rei da capoeira regional, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.efdeportes.com/efd133/mestre-bimba-o-fundador-e-rei-da-capoeira-regional.htm

  9. A SEQUÊNCIA DE MESTRE BIMBA, UM JOGO DE ENSINO-APRENDIZAGEM. Hélio José B. C. de Campos Este ensaio tem a finalidade de despe, acessado em janeiro 6, 2026, https://periodicos.ufba.br/index.php/entreideias/article/viewFile/2902/2069

  10. Mestre Bimba – Wikipédia, a enciclopédia livre, acessado em janeiro 6, 2026, https://pt.wikipedia.org/wiki/Mestre_Bimba

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Salvador, Bahia M PASTINHA FALECEU 13 de novembro 1981 - O ABC de Grandes Mestres de Capoeira, acessado em janeiro 6, 2026, https://velhosmestres.com/br/pastinha-1981

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