MANUEL HENRIQUE PEREIRA.
BESOURO MANGANGÁ.
A Salvaguarda da Memória, a Resistência Negra e o Mito na Capoeiragem do Recôncavo Baiano.
Elaborador: Cristiano Dos Santos Rocha.
(Instrutor Alemão, Organizações Onças).
São Paulo/SP.
Janeiro de 2026.
Sumário:
Introdução: O Epistéme da Capoeira no Recôncavo.
Perfil Biográfico: As Raízes em Santo Amaro da Purificação.
2.1. Origens e Genealogia: Manuel Henrique Pereira.
2.2. A Gênese do Nome: Entre o Inseto e o Voo do Espírito.
Contexto Socioeconômico: O Pós-Abolição e a Luta pelo Espaço.
3.1. A Economia do Açúcar e os Saveiros do Rio Subaé.
3.2. A "Modernização Conservadora" e a Marginalização do Corpo Negro.
Linhagem e Treinamento: A Ciência da Mandinga.
4.1. Mestre Alípio e a Herança Africana do Trapiche de Baixo.
4.2. Características Técnicas: A Capoeira Indivisível (Pré-Regional e Angola).
4.3. O Manejo das Armas Brancas e o Jogo de Santa Maria.
Trajetória de Resistência: O Confronto com a Ordem Instituída.
5.1. Crônica de Confrontos: O Episódio de São Caetano (1918).
5.2. O Enfrentamento aos Coronéis e a Justiça de Própria Mão.
5.3. A Fenomenologia do "Corpo Fechado": Escudo Espiritual e Político.
Conexão Política: A Capoeiragem e o Direito Penal da República Velha.
6.1. As Leis de Vadiagem e o Código Penal de 1890.
6.2. O Controle Social e a Estigmatização dos "Valentões".
O Declínio e a Morte: O Enigma de Maracangalha.
7.1. O Episódio da Carta e a Traição do Dr. Zeca.
7.2. A Faca de Tucum: O Rompimento do Sagrado.
7.3. Análise Historiográfica: Fato Documental vs.Narrativa Mítica.
Análise Lírica: A Voz do Berimbau e a Memória Cantada.
8.1. Análise da Cantiga 1: "Besouro Mangangá" (Perninha).
8.2. Análise da Cantiga 2: "Faca de Tucum" (Mestre Matias/Amâncio)
8.3. Análise da Cantiga 3: "Era um tal de Besouro Mangangá" (Mestre Jogo de Dentro).
Legado e Impacto Contemporâneo: A Imortalidade na Roda.
9.1. A Influência na Capoeira Moderna e na Identidade Negra.
9.2. Besouro nas Artes: Cinema, Literatura e Música.
A Salvaguarda Documental: Cristiano Dos Santos Rocha (Instrutor Alemão).
Referências Documentais e Citadas.
1. Introdução: O Episteme da Capoeira no Recôncavo
Besouro Mangangá (Manuel Henrique Pereira), de Santo Amaro da Purificação, Recôncavo Baiano (início do século XX), foi mais que um capoeirista lendário; ele simbolizou a violenta insurgência visceral do corpo negro contra o silenciamento pós-abolição (1888) e as novas formas de dominação, recusando a servidão disfarçada de trabalho livre.
A vida de Besouro desenrola-se em um tenso "ecótono cultural", onde a brutalidade das usinas de açúcar, com suas injustiças, colide com a metafísica e cosmologia das religiões africanas. Para ele, a capoeira era um dialeto de resistência, uma dança de vida e morte, e um meio de conexão ancestral.
O dossiê desvenda a complexidade de Besouro Mangangá, tratando-o como um "intelectual orgânico" da resistência popular, além de capoeirista. Suas táticas de sobrevivência e combate moldaram a identidade da capoeira baiana, dando-lhe uma mística invulnerável e infundindo uma alma indomável no Recôncavo. A lenda de sua invencibilidade era um código de esperança e vingança para os despossuídos.
2. Perfil Biográfico: As Raízes em Santo Amaro da Purificação.
2.1. Origens e Genealogia: Manuel Henrique Pereira.
Manuel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, nasceu entre 1895 e 1897 em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, região de intensa cultura e sofrimento durante a transição pós-escravocrata.
Manuel, filho de ex-escravizados, carregava a herança da Diáspora Africana. Seu pai era João Matos Pereira (João Grosso) e sua mãe, Maria José (também citada como Maria Auta ou Maria Haifa). A variação no nome materno reflete a invisibilidade social dos negros libertos.
Manuel cresceu em um ambiente de forte tensão social pós-Abolição (1888), onde a liberdade e oportunidades econômicas para a população negra eram limitadas. Inserido na realidade do Recôncavo, a única opção de subsistência para o homem negro era o trabalho braçal, frequentemente nas plantações de cana-de-açúcar. Sua formação foi marcada pela herança da labuta forçada e a resistência contra a opressão.
O Despertar da Lenda: Estatura, Agilidade e o Início da Diferenciação.
Desde a juventude, Manuel Henrique Pereira demonstrou características físicas e habilidades que o destacavam drasticamente da maioria dos trabalhadores rurais. Ele era descrito como um negro de compleição física imponente: alto, forte e de presença marcante. No entanto, não era apenas sua força bruta que chamava a atenção, mas, sobretudo, sua agilidade fora do comum. Em um contexto onde o corpo era sinônimo de mão de obra para os canaviais, o corpo de Manuel se manifestava com uma destreza quase sobrenatural.
Essa combinação de porte físico intimidador e leveza de movimentos sinalizava uma distinção crucial. Enquanto a massa de ex-escravizados e seus descendentes estava fadada à repetição monótona e exaustiva do trabalho agrícola, Manuel parecia destinado a um caminho onde a mobilidade e a rapidez seriam suas maiores armas. Essa diferenciação física e de destreza foi, indubitavelmente, um dos primeiros presságios do que ele se tornaria: não um simples trabalhador, mas uma figura que desafiaria as normas e que, através da capoeira e da sua astúcia, se moveria de forma imprevisível e inatingível, como o inseto que lhe daria o apelido: o Besouro Mangangá.
2.2. A Gênese do Nome: Entre o Inseto e o Voo do Espírito.
O nome "Besouro Mangangá" representava identidade, mistério e força. O Mangangá, um besouro grande, é conhecido pelo voo ruidoso e picada dolorosa. Seu voo, que desafia a aerodinâmica, é um paralelo à vida de Manuel.
O apelido se deu pelo seu talento místico de "sumir" da autoridade. Lendas dizem que, em cercos, Besouro se transformava no inseto Mangangá, voando sobre os soldados, ou em um inofensivo toco de pau, frustrando a perseguição.
Analisando essa narrativa sob uma ótica histórica e estratégica, a lenda é a forma poética de traduzir a extraordinária agilidade e o profundo conhecimento geográfico que Manuel detinha. Seu domínio do terreno, das veredas e esconderijos do interior da Bahia era vasto, permitindo-lhe escapar de emboscadas e fugir em locais que eram totalmente desconhecidos e inóspitos para os agentes da lei e capitães do mato. Essa capacidade de evasão reforçava a aura de invencibilidade.
Manuel, o "Besouro Mangangá", tinha outros apelidos que marcavam sua importância na capoeiragem. "Besouro Cordão de Ouro" indicava sua maestria, comparável ao metal precioso, e talvez status ou proteção. Já "Besouro Preto" destacava sua identidade racial e sua liderança entre os afro-descendentes na capoeira baiana. Estes nomes o definiam como mais que um capoeirista; era um mito desafiando o poder.
3. Contexto Socioeconômico: O Pós-Abolição e a Luta pelo Espaço.
3.1. A Economia do Açúcar e os Saveiros do Rio Subaé.
Santo Amaro, berço da lenda de Manuel Henrique, era um polo econômico crucial na Bahia, centrado no açúcar, tabaco e aguardente. Contudo, a prosperidade da elite agrária coexistia com profundos contrastes sociais, inerentes ao sistema colonial e escravocrata.
Os canaviais do Recôncavo Baiano geravam uma produção intensa. O Rio Subaé era a principal via de escoamento, transportando a produção em saveiros até Salvador, integrando Santo Amaro ao comércio global.
Este ambiente portuário e agrário, com sua diversidade de mão de obra e tensão social, serviu como laboratório para a capoeira, consolidando-a como arte de resistência. Trabalhadores portuários, marinheiros e, notavelmente, vaqueiros de usina (profissão exercida por Besouro Mangangá) formavam uma rede de circulação que facilitava o intercâmbio de saberes da cultura negra, mas também era palco constante de conflitos com as autoridades e o poder.
A feira livre de Santo Amaro era um ponto central, caótico e vibrante, de liberdade relativa. Além das transações, funcionava como território onde relações de trabalho injustas eram sutilmente contestadas. Mais crucialmente, ali manifestações culturais negras, como capoeira e samba de roda, resistiam abertamente à repressão e vigilância, preservando e desenvolvendo uma identidade cultural forte.
3.2. A "Modernização Conservadora" e a Marginalização do Corpo Negro.
O Contexto Pós-Abolição e o Nascimento de uma Lenda.
A abolição da escravatura, formalizada pela Lei Áurea em 1888, longe de representar a plena liberdade e integração social, inaugurou um período de profunda exclusão e luta para a população negra liberta no Brasil. O Estado brasileiro, ao assinar a lei, eximiu-se de qualquer responsabilidade em implementar políticas de reparação ou de inserção efetiva. O que se seguiu foi um processo de "modernização conservadora", uma estratégia da elite para manter o status. Esta modernização preservou o regime do latifúndio como espinha dorsal da economia e utilizou o racismo estrutural como a principal ferramenta de exclusão social e econômica.
A Marginalização em Santo Amaro.
Na região de Santo Amaro, no recôncavo baiano, esse cenário não foi diferente. Os negros libertos foram sistematicamente empurrados para as margens da sociedade e para as áreas mais precárias das cidades. O bairro do Trapiche de Baixo, em Santo Amaro, tornou-se um desses emblemáticos espaços de marginalidade. Ali, a precariedade habitacional, a falta de infraestrutura básica e a ausência de oportunidades eram a regra, consolidando um ambiente de profunda vulnerabilidade. A elite agrária local, composta pelos poderosos coronéis e fazendeiros, via com profundo receio e hostilidade o corpo negro livre.
A Capoeira como Ato de Desafio.
A capoeira, praticada nesses espaços de confinamento e resistência nas periferias e senzalas remanescentes, era vista pelos olhos da elite não como uma manifestação cultural, arte marcial ou esporte, mas sim como um vetor de "vadiagem", "desordem" e, acima de tudo, uma ameaça à ordem social estabelecida e à lógica do trabalho rural. A prática era criminalizada e seus praticantes perseguidos, pois simbolizava uma forma de organização e resistência que escapava ao controle patronal.
Manuel Henrique: O Desafio à Ordem do Latifúndio.
No cenário opressor de profundas desigualdades pós-abolição, emerge Manuel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá. Ele não era apenas um marginalizado, mas a encarnação do desafio à ordem vigente, ao trabalho submisso e à violência imposta pelos poderosos proprietários de terras.
Besouro recusava-se a submeter-se à autoridade arbitrária de fazendeiros e capatazes cruéis, que mantinham um poder quase feudal sobre libertos e trabalhadores pobres. Sua resistência confrontava diretamente um sistema que tentava reviver as hierarquias raciais e sociais da escravidão. Sua intransigência contra a submissão e a exploração, combinada com seu lendário domínio da capoeira como ferramenta de luta por liberdade e justiça, o transformou em herói popular.
Para Besouro, capoeira era resistência. Seus movimentos rápidos o fizeram lenda viva e inimigo da classe dominante, que buscava manter privilégios. Besouro Mangangá personificava a resistência radical de libertos e excluídos, lutando contra o poder oligárquico por dignidade e autonomia, simbolizando a promessa incompleta da abolição e inspirando a oposição à opressão.
4. Linhagem e Treinamento: A Ciência da Mandinga.
4.1. Mestre Alípio e a Herança Africana do Trapiche de Baixo.
Manuel Henrique Pereira, o futuro Besouro Mangangá, iniciou seu aprendizado de capoeira no Trapiche de Baixo, área portuária de Salvador. Mestre Alípio, figura importante na linhagem da capoeira, foi seu guia na criação dessa lenda.
Alípio, um africano escravizado, guardava os segredos mais profundos da capoeira. Ele transmitia a arte marcial pura e ancestral, uma expressão de resistência e herança africana, essencial para a sobrevivência e insubmissão.
O conhecimento era passado secretamente, à noite ou em locais escondidos, fugindo da polícia. As rodas de capoeira de Alípio eram rituais subversivos que reafirmavam a identidade e a história africanas contra a repressão.
Mestre Alípio ensinou a Manuel a "ciência da mandinga" — o saber espiritual e prático (ervas, rezas, patuás) que era a verdadeira força e o elevou a ícone místico.
Sua linhagem o conectava a mestres africanos, conferindo-lhe autoridade mística. Visto como herdeiro dos guerreiros ancestrais, possuía axé especial para se "fechar" (invulnerabilidade) e, segundo o mito, transformar-se em besouro. Essa aura era a base de sua invencibilidade e fascínio entre os oprimidos.
4.2. Características Técnicas: A Capoeira Indivisível (Pré-Regional e Angola).
Na época de Besouro, a capoeira não conhecia a divisão entre "Angola" e "Regional", sistematizada décadas depois por Mestre Pastinha e Mestre Bimba, respectivamente. A capoeira praticada por Manuel Henrique era uma arte marcial completa e fluida, caracterizada por:
Agilidade e Velocidade: Descrito como dotado de uma rapidez de pensamento e corpo que hipnotizava quem o via jogar.
Malícia e (Mandinga): A capacidade de simular fraqueza para atrair o adversário para um golpe fatal.
Ataques Traumáticos: O uso extensivo de cabeçadas, rasteiras e martelos, executados com força bruta e precisão cirúrgica.
Elasticidade Sobrenatural: A fama de que ele conseguia se contorcer e saltar de formas humanamente impossíveis, o que alimentava o mito do voo.
4.3. O Manejo das Armas Brancas e o Jogo de Santa Maria.
A reputação de invencibilidade de Besouro, já lendária pela destreza na capoeira baiana, era igualmente consolidada por sua habilidade letal com armas brancas, sendo um temido faquista e, sobretudo, um excepcional navalhista.
Naquele contexto, facão e navalha de ponta eram extensões naturais do corpo do capoeirista, ferramentas cruciais de defesa e ataque. A maestria no manejo desses instrumentos diferenciava os praticantes, elevando sua figura a um novo patamar de respeito e temor.
Besouro era um mestre no perigoso "Jogo de Santa Maria", um subgênero de capoeira extremamente agressivo, reservado a duelos de vida ou morte. A característica principal era o uso letal de navalhas presas aos pés (entre os dedos ou no calcanhar), transformando chutes e rasteiras em golpes fatais. Essa especialização brutal com navalhas consolidou o mito de Besouro Mangangá como um dos capoeiristas mais perigosos e inatingíveis da história.
Fonte:.
O "jogo de armas brancas" da capoeira era uma tática engenhosa contra a implacável repressão policial e militar. Enquanto as autoridades ostentavam sabres e revólveres – símbolos de poder –, o capoeirista subvertia essa disparidade, usando inteligência e adaptabilidade para transformar o mundano em arma e garantir sua sobrevivência.
A adaptação criativa e guerrilheira à hostilidade do ambiente transformava instrumentos de uso cotidiano em ferramentas de defesa e ataque surpreendentemente eficazes. Navalhas, pedras, pedaços de pau e até facões agrícolas tornavam-se extensões letais do corpo treinado. A malandragem, a astúcia e o corpo a corpo, aliados a esses recursos improvisados, permitiam ao capoeirista resistir ao aparato repressivo, provando que a agilidade e a surpresa podiam superar a superioridade de armamento formal. Essa tática era uma forma de resistência cultural e física contra a marginalização e a violência do Estado.
5. Trajetória de Resistência: O Confronto com a Ordem Instituída.
5.1. Crônica de Confrontos: O Episódio de São Caetano (1918).
Em 8 de setembro de 1918, em Salvador, Manuel Henrique (Besouro Mangangá) desafiou a polícia no bairro de São Caetano. Ele exigiu a devolução de um berimbau confiscado, essencial para seu grupo de capoeira, defendendo a cultura afro-brasileira e a identidade do grupo.
A recusa do praça Argeu Cláudio de Souza apenas motivou Besouro, que invadiu o posto policial e desafiou a autoridade, desferindo um potente "cascudo" no soldado Paulo Clemente de Cerqueira e chamando-o de "recruta", em sinal de desprezo pela polícia.
Em uma impressionante demonstração de perícia marcial, Besouro Mangangá, cercado por policiais na delegacia, pegou um sabre de um oficial e, desarmado, usou a capoeira e a arma improvisada para enfrentar a força policial.
Apesar da lendária resistência de Besouro, autoridades o subjugaram por superioridade numérica e auxílio local.
Invadir o quartel por um berimbau e desafiar a autoridade, mesmo derrotado, consolidaram Besouro como um capoeirista inigualável, herói popular e defensor místico da cultura negra contra a opressão. Sua bravura elevou sua estatura política, transformando-o em símbolo de resistência e figura mítica de invulnerabilidade.
5.2. O Enfrentamento aos Coronéis e a Justiça de Própria Mão.
Manoel Henrique Pereira, o Besouro, foi um capoeirista e símbolo de resistência. Ele aterrorizou coronéis e fazendeiros no Recôncavo Baiano (Santo Amaro e Maracangalha) no início do século XX por se recusar a aceitar as injustiças rurais. Besouro combatia a exploração nas fazendas, o não pagamento de salários e os castigos corporais impostos a trabalhadores e meeiros.
Besouro Cordão de Ouro, capoeirista invencível e "justiceiro" para os pobres, exigia pagamento de patrões caloteiros, como fez ao invadir uma casa. Seu código moral proibia roubar ou matar inocentes; ele agia como um freio moral armado contra a tirania. Sua resistência era a materialização visceral da luta por dignidade contra o poder colonial e escravocrata na Bahia, onde usava a capoeira e seu mito para reequilibrar o poder em face da falha da justiça oficial.
5.3. A Fenomenologia do "Corpo Fechado": Escudo Espiritual e Político.
O conceito de "corpo fechado" é o eixo central da lenda de Besouro Mangangá, simbolizando sua invulnerabilidade mística. A crença afro-brasileira sustentava que rituais e "bolsas de mandinga" tornaram sua pele impenetrável a objetos metálicos. O imaginário popular descrevia balas inofensivas que batiam em seu peito e caíam, solidificando seu renome e o terror que inspirava.
Para uma análise histórica de Besouro Mangangá, é crucial ver o mito do "corpo fechado" não apenas como "arma de fé", mas como uma estratégia psicológica de resistência. No violento Brasil pós-abolição, onde libertos e camponeses estavam à mercê da violência de Estado, latifundiários e milícias, essa crença servia como defesa mental. A fé na invulnerabilidade espiritual deu a Besouro coragem sobre-humana, transformando o medo em audácia. Funcionava como um escudo moral, permitindo-lhe enfrentar as forças de repressão com ferocidade e estabelecendo uma soberania ontológica.
Através do mito de Besouro Mangangá, o corpo do negro, historicamente explorado pelo Estado escravista, tornou-se inacessível à opressão. Besouro simbolizava a esperança de que a força do espírito e da cultura negra pudesse anular a opressão material. Sua lenda transformou a vulnerabilidade física em poder metafísico, consolidando-o como um ícone da resistência popular contra a aniquilação da dignidade e liberdade negra.
6. Conexão Política: A Capoeiragem e o Direito Penal da República Velha.
6.1. As Leis de Vadiagem e o Código Penal de 1890.
A perseguição a Manuel Henrique não era um fenômeno aleatório, mas uma peça da engenharia jurídica da recém-nascida República brasileira. O Código Penal de 1890 criminalizou explicitamente a capoeiragem e a vadiagem.
Artigo 399: Tratava da vadiagem, punindo aqueles que não tinham ocupação fixa.
Artigo 402: Proibia especificamente "fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem".
A estratégia era prender negros que não trabalhassem para patrões. A capoeira era tida como escola de insubordinação. Ao caçar Besouro por "vadiagem", o Estado visava destruir um modelo de masculinidade negra autônoma e combativa.
6.2. O Controle Social e a Estigmatização dos "Valentões".
A representação de Besouro Mangangá em registros da época, como mídia e arquivos policiais, era uma campanha intensa de desumanização. Autoridades e imprensa usavam termos pejorativos ("valentão", "capadócio", "desordeiro") para construir uma imagem de periculosidade e marginalidade, justificando a violência policial arbitrária e letal. Essa linguagem funcionava como controle social, desqualificando Besouro e legalizando a repressão.
A complexidade de Besouro estava em subverter a lógica binária de ordem e desordem. Para sobreviver em um ambiente hostil, ele usava discursos estratégicos, chegando a se declarar um "trabalhador da ordem" quando conveniente, buscando proteção ou reconhecimento sob pressão.
Besouro operava na ambígua "zona cinzenta" da capangagem política ou pistolagem, usando a capoeira e sua fama como guarda-costas informal de coronéis e chefes políticos. Isso o colocava entre a legalidade e a ilegalidade: procurado pela polícia, mas contratado pelo poder. Essa atividade permitia-lhe transitar entre a elite e o subúrbio, revelando que a ordem na Primeira República era mantida pela força e influência, e não pela lei, expondo a hipocrisia e fluidez do poder. Para os marginalizados, como Besouro, era uma via de sobrevivência ou ascensão.
7. O Declínio e a Morte: O Enigma de Maracangalha.
7.1. O Episódio da Carta e a Traição do Dr. Zeca.
Manuel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, teve seu destino selado em 1924. Sua vida perigosa terminou em um episódio trágico, marcado pela tradição como fatalidade e traição.
O fim de Besouro ocorreu na Usina de Maracangalha, Bahia, após uma discussão com Meneu, filho do Dr. Zeca, um poderoso fazendeiro local. Esse confronto, aparentemente menor, revelou a profunda oposição entre o capoeirista e a elite latifundiária.
Ciente da invulnerabilidade e agilidade lendária de Besouro, o influente Dr. Zeca evitou o confronto direto, optando por uma cilada covarde e dissimulada.
Dr. Zeca explorou o analfabetismo de Besouro, incumbindo-o de levar uma carta de rotina ao administrador da Usina, Baltazar. Besouro aceitou a missão, mas a missiva era uma sentença de morte cifrada, com a ordem: "Dê fim ao portador".
Ao entregar a carta ao administrador Baltazar, Besouro selou seu destino. Fiel às ordens do Dr. Zeca, Baltazar não hesitou em eliminá-lo. Besouro foi cercado por quarenta jagunços enquanto estava distraído. Sua morte foi resultado de uma traição, encerrando sua vida e iniciando seu mito.
7.2. A Faca de Tucum: O Rompimento do Sagrado.
A invulnerabilidade de Besouro Mangangá contra balas, atribuída a um "corpo fechado" místico, gerava pavor em seus agressores. Contudo, a lenda aponta que essa proteção espiritual só poderia ser quebrada por uma arma feita da madeira de tucum (Bactris setosa). Nas religiões afro-brasileiras como Candomblé e Umbanda, o tucum é reverenciado por sua dureza e simbolismo como "quebrador de feitiços", sendo o único recurso místico capaz de neutralizar a proteção de Besouro.
Segundo o mito, Besouro foi fatalmente atacado de forma traiçoeira por Eusébio da Quibaca, atingido pelas costas enquanto rompia um cerco. Algumas versões sugerem uma conspiração: pagaram uma mulher para dormir com Besouro e roubar seu patuá (amuleto de proteção) durante o sono. A retirada do patuá teria quebrado seu "fechamento" espiritual, tornando o invulnerável capoeirista vulnerável à faca de tucum.
7.3. Análise Historiográfica: Fato Documental vs. Narrativa Mítica.
Ao contrastar a tradição oral, rica em elementos míticos e contada de geração em geração pelos mestres de capoeira e a comunidade, com os documentos históricos disponíveis, muitas vezes fragmentados e produzidos sob a ótica da repressão e do poder estabelecido, encontramos as marcas profundas e fascinantes da transfiguração de Manuel Henrique Pereira em Besouro Mangangá. Essa passagem não é apenas uma mudança de nome, mas sim a consolidação de um personagem que transcende a biografia, tornando-se um símbolo de resistência, astúcia e liberdade. A história escrita registra um capoeirista, talvez um "desordeiro" para as autoridades da época, enquanto a tradição oral imortaliza o homem que "voava", que não podia ser atingido por balas e que se fundia com a natureza, um herói popular cujo legado perdura na memória cultural e na prática da capoeira angola.
A ausência do tucum na certidão de óbito não anula a tradição, mas a reforça, pois a comunidade negra sacralizou a morte do herói. Para a história oral, Besouro não sucumbiu a uma arma comum, o que significaria sua derrota; ele "perdeu a força" devido à traição e ao uso de elementos sagrados da própria terra.
8. Análise Lírica: A Voz do Berimbau e a Memória Cantada.
A história da capoeira, rica em resistência e ancestralidade, é preservada pela oralidade e pelo canto, que imortaliza lendas como Besouro Mangangá. Para manter vivo o mito deste capoeirista lendário, temido por sua força, astúcia e corpo "fechado", três cantos essenciais narram seus feitos, contextualizam sua época e estabelecem seu papel como símbolo inquebrável de resistência e liberdade para as futuras gerações.
8.1. Análise da Cantiga 1: "Besouro Mangangá" (Perninha).
"Besouro Mangangá, Besouro Mangangá / Cidade de Santo Amaro, terra do Maculelê / Viu os Mestres Popó e Vavá e viu Besouro nascer".
Significado: Esta cantiga é uma lição de geografia e genealogia cultural. Ela situa Besouro no epicentro das tradições guerreiras de Santo Amaro, associando-o ao Maculelê (luta com bastões) e a mestres históricos como Popó. A letra serve para enraizar o praticante na linhagem do Recôncavo, afirmando que a capoeira de Besouro é a matriz de onde brota a resistência.
8.2. Análise da Cantiga 2: "Faca de Tucum" (Mestre Matias/Amâncio).
"Faca de tucum matou Besouro Mangangá / Corpo fechado, magia com reza forte / Na vida não levava lição de ninguém / Cordão de Ouro também chamado Besouro / Hoje joga capoeira com os mestres do além".
Significado: Esta letra foca na dualidade vida/morte e na proteção espiritual. Ao mencionar que ele "não levava lição de ninguém", ressalta sua insubmissão característica. A conclusão de que ele "joga capoeira com os mestres do além" imortaliza Manuel, transformando-o em um ancestral que continua guiando os capoeiristas no plano espiritual.
8.3. Análise da Cantiga 3: "Era um tal de Besouro Mangangá" (Mestre Jogo de Dentro).
"Você diz que dá no nego, no nego você não dá / Ee joga o nego para cima e deixa o nego vadiar".
Significado: Esta cantiga ressalta a "vadiagem" como um ato de liberdade e a inatingibilidade de Besouro. O refrão desafia a autoridade policial e senhorial, afirmando a soberania do corpo negro que, mesmo perseguido, encontra prazer e liberdade no jogo. É a celebração da agilidade técnica e da vitória moral sobre o opressor.
9. Legado e Impacto Contemporâneo: A Imortalidade na Roda.
9.1. A Influência na Capoeira Moderna e na Identidade Negra.
Manuel Henrique Pereira, o lendário Besouro Mangangá, é o arquétipo do "Mestre dos Mestres" na capoeira. Sua vida ressalta que a arte nasceu como resistência contra a opressão.
Besouro funde técnica (capoeira) e mística da insubordinação. Sua fama de 'corpo fechado' e metamorfose o elevam a um patamar mítico, simbolizando a astúcia e invulnerabilidade do oprimido.
Ele representa a resistência negra armada e mística no Recôncavo Baiano, desafiando a ordem social na transição colonial-República e consagrando a capoeira como arte marcial da liberdade.
9.2. Besouro nas Artes: Cinema, Literatura e Música.
A figura de Besouro Mangangá se tornou um mito cultural, cuja influência e legado como capoeirista lendário se perpetuam em diversas esferas artísticas e sociais.
Cinema: A Visualização do Mito.
O filme Besouro (2009), de Tikhomiroff e Meirelles, popularizou mundialmente a lenda. Com efeitos visuais inovadores, a produção retratou o "voo" e a invulnerabilidade mítica de Besouro, focando em sua luta contra o coronelismo e a opressão no Recôncavo Baiano.
Literatura: Resgate Histórico e Cultural
Obras de Marco Carvalho e José Gerardo Vasconcelos foram essenciais para resgatar Besouro (Manuel Henrique Pereira). A literatura o contextualiza no início do século XX, detalhando sua vida, capoeira e resistência, mesclando mito e documentação histórica.
Música: A Sonora Tradição do Recôncavo
Besouro é essencial para a sonoridade do Recôncavo Baiano e a cultura da capoeira, influenciando a música popular. Dorival Caymmi imortalizou Maracangalha, ligada a Besouro e à capoeira. Recentemente, Capoeira de Besouro, de Paulo César Pinheiro, documenta a saga com samba, candomblé e ritmos de capoeira. A música é crucial para a perpetuação desse mito cultural.
10. A Salvaguarda Documental: Cristiano Dos Santos Rocha (Instrutor Alemão).
No cenário contemporâneo, a preservação dessa memória exige ferramentas que Besouro não possuiu em 1924: a documentação e o registro institucional. O trabalho de Cristiano Dos Santos Rocha, amplamente conhecido como Instrutor Alemão, é exemplar neste sentido.
Perfil do Pesquisador.
Cristiano Dos Santos Rocha é pesquisador devidamente cadastrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Sua atuação exemplar no mapeamento e salvaguarda do patrimônio cultural afro-brasileiro é um pilar para a manutenção da memória dos Mestres de Capoeira e da integridade técnica da Roda de Capoeira, assegurando que este bem cultural continue a ecoar como um símbolo de resistência e identidade nacional.
Cristiano Dos Santos Rocha, conhecido na capoeiragem como Instrutor Alemão, é aluno formado pelo eterno Mestre Vovô(BA). Atualmente, é filiado à Associação de Capoeira Ilha de Itapuã - Organizações Onças(SP), onde seu mentor é o Contramestre Cabelo Pé Serra, mantendo também conexões com suas raízes: Escola de Capoeira Casa do Vovô - Itabuna/BA.
11. Referências Documentais e Citadas.
Para a elaboração deste dossiê, foram consultadas as seguintes fontes e marcos legais:
Marcos Legais: Código Penal Brasileiro de 1890 (Artigos 399 e 402); Registro da Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial (IPHAN, 2008 / UNESCO, 2014).
Documentação Técnica: Dossiê Técnico-Curricular de Cristiano Dos Santos Rocha (Instrutor Alemão) sobre a Salvaguarda da Matriz Cultural da Capoeira.
Estudos Historiográficos: "Besouro Cordão de Ouro: vitrais biográficos de Manuel Henrique Pereira", Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica.
Registros Médicos/Civis: Certidão de Óbito de Manuel Henrique Pereira (Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, 1924).
Tradição Oral: Relatos e cantigas de Mestre Cobrinha Verde (Rafael Alves França), Mestre João Pequeno e Mestre João Grande.
Mídia e Artes: Besouro: O Filme (2009); Capoeira de Besouro (Paulo César Pinheiro, 2010).
Referências citadas
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