Musicalidade a Alma da Capoeira: A Bateria, Orquestra, Estrutura, Hierarquia e funções Instrumentais.
Musicalidade da Capoeira.
Relatório Técnico e Etnomusicológico.
PRÉVIA EM VIDEO:
Credenciamento: Pesquisador Cadastrado no IPHAN.
São Paulo/SP.
Janeiro de 2026.
Sumário:
Introdução.
raízes-históricas-a-herança-banto-e-a-cronosofia-da-resistência.
a-bateria-orquestra-estrutura-hierarquia-e-funções-instrumentais.
3.1a-bateria-da-capoeira-angola-o-rigor-da-tradição.
3.2a-charanga-da-capoeira-regional-a-revolução-pedagógica-de-bimba.
4. a-ciência-do-berimbau-condução-acústica-e-comunicação.
4.1 acústica-e-técnica-de-execução.
4.2 a-semântica-dos-toques-a-linguagem-do-jogo.
5. A Lírica e o Canto: A Oralidade como Arquivo Histórico.
5.1 a-estrutura-tripartite-do-canto.
6. luthieria-da-capoeira-o-ofício-sagrado-da-fabricação.
6.1 a-escolha-e-preparo-da-madeira-biriba.
6.2 o-coração-da-ressonância-a-cabaça.
6.3 a-têmpera-do-arame.
7. tabela-comparativa-rítmica-e-estética-dos-toques.
7.1 A Profundidade de Cada Ritmo.
8. conclusão-a-musicalidade-como-salvaguarda-do-patrimônio.
9. Créditos e Referências.
9.1 Nota de agradecimento.
Jadson Bruno Costa dos Santos: (Professor “Formiga”)
9.2 Sobre o pesquisador.
10. referências bibliográficas.
1. Introdução.
A capoeira é mais que luta ou coreografia; é uma manifestação cultural afro-brasileira e um sistema de musicalidade ritualizada. A música atua como o sistema nervoso central do jogo, coordenando intenção, pulsação e cadência dos movimentos na roda. Não é mero acompanhamento, mas a força motriz que define velocidade, estilo e propósito. O berimbau, instrumento regente, dita a "lei" do jogo com seus toques (Angola, São Bento Grande, Iúna), estabelecendo o contexto ritual e a intensidade do embate.
A musicalidade da Capoeira tem raízes africanas, servindo como repositório de memória, resistência e história. Sua estrutura de canto (ladainhas, chulas e corridos) e a percussão (atabaques, pandeiros, agogôs e berimbaus) criam uma polirritmia complexa, que é um código rítmico e âncora cultural. Essa música evoluiu como ferramenta de comunicação codificada, disfarçando a luta como dança para os opressores. Na roda, a música é a dramaturga invisível que garante que o jogo mantenha sua essência: a arte de lutar pela liberdade, oculta na arte de tocar e cantar.
2. Raízes Históricas: A Herança Banto e a Cronosofia da Resistência.
A musicalidade da capoeira tem origem na diáspora banto (Angola, Congo, Moçambique). Para esses povos, a música era essencial, veículo para manter a linhagem e o culto aos antepassados. Baseada na cosmovisão banto da circularidade do tempo (cronosofia), a roda de capoeira suspende o tempo linear para invocar força ancestral.
Durante o Brasil colonial e imperial, a musicalidade da capoeira serviu como "camuflagem estratégica" para a luta de libertação dos escravizados. Ritmos e cantigas permitiam disfarçar o treinamento marcial como dança ou celebração, evitando a repressão. Essa subversão transformou a música em ferramenta de resistência didática, preservando o conhecimento africano contra o epistemicídio escravagista.
A herança banto é evidente na música da capoeira, com a preferência por percussão e o arco musical, cujo predecessor direto é o urucungo ou hungu angolano. O ritual angolano do Ngolo (dança da zebra) é base rítmica e cinética que, no Brasil, fundiu-se a outras culturas. Essa música de resistência servia como código de comunicação para escravizados organizarem fugas, alertar sobre capitães-do-mato e preservar a dignidade.
3. A Bateria (Orquestra): Estrutura, Hierarquia e Funções Instrumentais.
A bateria é a alma e o centro de comando da roda de capoeira, representando a herança africana. Sua formação e cada instrumento possuem função técnica e simbólica específica. A orquestra é a guardiã do ritmo, da melodia e do "fundamento" (normas éticas e rituais). O berimbau, instrumento mestre, define o tipo, a velocidade e a energia do jogo.
A composição da bateria reflete diretamente as distintas filosofias e linhagens da capoeira, estabelecendo uma distinção clara entre as baterias da Capoeira Angola e da Capoeira Regional:
Bateria da Capoeira Angola: Caracterizada por ser mais numerosa e seguir a tradição estabelecida pelo Mestre Pastinha. Sua ênfase está na sutileza, no ritual, na malícia e nos movimentos rasteiros e lentos.
Composição Típica: Três berimbaus (Gunga, Médio/Centro, Viola), dois pandeiros, um atabaque, um agogô e um reco-reco.
Função: O Gunga (o berimbau maior e de som mais grave) é o líder incontestável, a voz do mestre, ditando a cadência lenta e o tipo de jogo, exigindo introspecção e diálogo corporal dos jogadores.
Bateria da Capoeira Regional: Desenvolvida e formalizada pelo Mestre Bimba, esta vertente prioriza a objetividade, a eficácia do movimento, a velocidade e a sequência de golpes.
Composição Típica: Um único berimbau (o mestre), dois pandeiros. Em algumas variações modernas, o atabaque é incluído, mas é tradicionalmente mais concisa.
Função: O berimbau solitário, sob a liderança do mestre, estabelece ritmos mais rápidos e marciais (como o São Bento Grande da Regional), incentivando um jogo mais acrobático e atlético, focado no desenvolvimento físico e técnico do aluno.
A bateria de capoeira é o cerne da roda, comandando, advertindo e inspirando. Ela expressa a história e as filosofias complementares dos mestres Pastinha (tradição) e Bimba (inovação/sistematização).
3.1 A Bateria da Capoeira Angola: O Rigor da Tradição.
Na Capoeira Angola, sob a orientação do Mestre Pastinha, a musicalidade é um pilar central e tradicional. A bateria, ou orquestra de capoeira, é um conjunto completo e ligado a uma hierarquia formal.
A organização dos instrumentos reflete profundamente as estruturas rituais e simbólicas do Candomblé, onde cada instrumento e tocador têm lugar e função específicos. A disposição no pé do berimbau é quase sagrada, transcendendo a acústica.
A bateria resulta em um som denso, profundo e geralmente mais lento, ideal para a introspecção e o cultivo da malícia (astúcia e antecipação) dos capoeiristas. A música determina a cadência, energia e profundidade do jogo de Angola.
A composição tradicional da bateria de Angola, rigorosamente mantida, inclui:
Nessa configuração instrumental e ritualística da Capoeira, o Berimbau Gunga assume a posição de regente absoluto e figura de comando inquestionável. Ele não é apenas um instrumento musical; é o condutor do ritmo, da energia (axé) e da própria dinâmica da Roda.
O Papel Central do Gunga:
Início e Fim do Jogo: O toque grave do Gunga marca o início e o fim exato do jogo de Capoeira. Sua batida ressonante é a marcação fundamental para todos os participantes.
Ditador de Ritmo e Toque: O Gunga define o ritmo (Angola, São Bento Grande, Iúna, etc.) e a velocidade do jogo. Sua alteração, mesmo sutil, é um comando instantâneo.
A Coordenação da Bateria exige que Berimbau Médio (Centro), Viola (Violão), atabaques, pandeiros e agogô sigam as intenções do Gunga. O Médio dialoga, o Viola improvisa, mas o Gunga estabelece a base rítmica e a "lei".
Comando do Jogo: O Gunga comanda o jogo na Roda, e os capoeiristas ajustam a intensidade, fluidez, golpes e estratégia. Toques lentos (Angola) pedem movimentos próximos e estratégicos; toques rápidos (São Bento Grande) estimulam um jogo acrobático e rápido.
A Tríade Simbólica dos Berimbaus:
A disposição hierárquica e funcional dos três berimbaus (Gunga, Médio e Viola) reflete uma profunda organização social e filosófica, frequentemente associada à estrutura familiar e comunitária africana e afro-brasileira:
O Gunga (Pai): Representa a ancestralidade, a autoridade, a sabedoria e a base. É a figura que estabelece a ordem e a tradição. Seu som é o mais grave, evocando a estabilidade e a profundidade.
O Médio ou de Centro (Mãe): Atua como o elo de ligação, o mediador entre a autoridade do Gunga e a liberdade do Viola. Seu papel é sustentar o ritmo do Gunga, preenchendo o espaço sonoro, garantindo a coesão rítmica e harmonizando a dinâmica.
O Viola ou Violão (Filho): É o elemento da inovação, da criatividade e da liberdade. Seu som é o mais agudo, e é o responsável pelos floreios e improvisações rítmicas. Embora traga a novidade, ele o faz sempre sobre a base e a permissão estabelecida pelo Gunga e sustentada pelo Médio.
Essa "tríade pai-mãe-filho" não apenas sustenta a harmonia sonora e ritual da Roda de Capoeira, mas também simboliza a interdependência e o respeito mútuo necessários para a manutenção da organização social do grupo. É um microcosmo da vida comunitária, onde a tradição (Gunga), a coesão (Médio) e a inovação (Viola) trabalham em conjunto para sustentar o axé e a continuidade da Capoeira.
3.2 A Charanga da Capoeira Regional: A Revolução Pedagógica de Bimba.
Mestre Bimba, ao criar a Capoeira Regional na década de 1930, promoveu uma mudança na musicalidade, adotando a formação instrumental concisa que chamou de "charanga".
Seu objetivo era garantir a máxima eficiência marcial e velocidade do jogo, não desvalorizar a cultura musical. A charanga de Bimba era um conjunto minimalista e funcional, composto por um berimbau (geralmente o médio, para o ritmo base) e dois pandeiros.
A instrumentação reduzida da Capoeira Regional foi uma escolha técnica de Bimba para evitar que a complexa polirritmia da Capoeira Angola tradicional ofuscasse a clareza das instruções do mestre e a rapidez dos golpes.
Na Regional, o berimbau é central e 'ditatorial', mantendo um ritmo acelerado e constante que impulsiona um confronto de alta voltagem física e técnica. A música, assim, catalisa a performance atlética e a disciplina marcial.
4. A Ciência do Berimbau: Condução, Acústica e Comunicação.
O berimbau é o coração e a voz de comando da roda de Capoeira, atuando como o maestro que dita o ritmo e o estilo do jogo. Sua estrutura simples (arco de madeira flexível/verga, arame de aço e cabaça ressonadora) esconde uma complexidade acústica e cultural impressionante.
O berimbau vai além de marcar o tempo na Capoeira; ele se comunica com jogadores e mestres através de toques com significados distintos. O Toque de Angola induz um jogo lento e estratégico (mandinga), enquanto o Toque de São Bento Grande acelera o ritmo, incentivando o jogo acrobático e rápido. Toques como o Cavalaria serviam historicamente para alertar sobre a polícia, mostrando seu papel vital na comunicação e preservação da prática.
A riqueza rítmica do berimbau é gerada pela baqueta (percute a corda), pelo dobrão ou ficha (altera o tom) e pelo caxixi (chocalho de mão). O berimbau é mais que música: é o narrador, guardião da tradição e força vital que harmoniza a coreografia e o diálogo marcial da Capoeira.
4.1 Acústica e Técnica de Execução.
O som do berimbau é produzido pela percussão de uma vareta de madeira contra um arame tensionado. A nota fundamental é alterada pelo uso de um "dobrão" (moeda de metal ou pedra arredondada). Existem três sons básicos que compõem a linguagem do instrumento:
Som Solto (Grave): O arame vibra livremente, com a cabaça afastada do abdômen, produzindo uma nota profunda e ressonante.
Som Preso (Agudo): O dobrão pressiona o arame com força, aumentando a frequência da vibração e produzindo uma nota clara e alta.
Chiado (Buzz): O dobrão apenas encosta levemente no arame, criando uma vibração metálica ruidosa, essencial para a marcação do ritmo.
O famoso efeito "wah-wah" é uma técnica de filtragem timbral. Ao aproximar a abertura da cabaça do corpo, o instrumentista altera as propriedades de ressonância do ar dentro da cabaça, abafando certas frequências e criando um som pulsante que imita a respiração humana.
4.2 A Semântica dos Toques: A Linguagem do Jogo.
Os toques são códigos que os capoeiristas devem decifrar instantaneamente. Eles não são apenas ritmos; são comandos táticos.
Toque de Angola: É o ritmo da tradição. Lento, melódico e carregado de malícia. Ele convida a um jogo de solo, onde os movimentos são feitos com o máximo de controle e estratégia.
São Bento Grande de Regional: Criado por Bimba, é um toque de guerra. Rápido, forte e eficiente, exige que os jogadores mantenham-se em pé, focando na precisão dos golpes e na rapidez das esquivas.
Iúna: Um toque sagrado e técnico. Tradicionalmente, é reservado para formados e mestres. O jogo de Iúna é uma demonstração de elegância, envolvendo movimentos acrobáticos e balões (projeções onde o jogador cai em pé).
Cavalaria: Toque histórico que imita o trotar dos cavalos. Alertava sobre a chegada da polícia (especialmente a montada), fazendo a luta virar dança inofensiva ou encerrando a roda.
Santa Maria: Um toque que carrega uma aura de perigo. Historicamente associado ao uso de navalhas nos pés ou mãos, sinalizando um jogo de extrema agressividade e risco.
5. A Lírica e o Canto: A Oralidade como Arquivo Histórico.
Se os instrumentos são o corpo da capoeira, o canto é sua alma, sopro vital e memória viva. A lírica da capoeira é uma literatura oral sofisticada, repositório histórico-cultural.
Essa tradição vocal não só preserva a história da diáspora afro-brasileira e a resistência à escravidão, mas também imortaliza mestres, mantendo vivo seu legado para inspirar novas gerações.
O canto na Capoeira não é só registro, mas veículo de lições morais, éticas e de sobrevivência, com provérbios e conselhos sobre respeito, humildade e comunidade.
No centro da roda, o sistema de "chamada e resposta" (côro) é o pilar social e energético. O solista (cantador ou mestre) faz a "chamada" e o coro responde, garantindo que o axé da roda se mantenha. O canto define o ritmo, velocidade e estilo do jogo, modulando a intensidade da manifestação coletiva de arte, luta e cultura..
5.1 A Estrutura Tripartite do Canto.
O ritual sonoro da capoeira segue uma ordem específica, especialmente na modalidade Angola:
Ladainha: É o prólogo. Cantada em solo, geralmente pelo mestre que segura o berimbau gunga. Durante a ladainha, os dois jogadores permanecem agachados ao pé do berimbau, em sinal de respeito e concentração. A letra costuma ser uma narrativa histórica ou filosófica, invocando a ancestralidade e preparando o campo espiritual da roda.
Chula ou Louvação: É a transição. São versos curtos de saudação. O cantador puxa uma louvação ("Iê, viva meu mestre!") e o coro responde imediatamente ("Iê, viva meu mestre, camará!"). Esse momento serve para saudar Deus, os mestres e a própria capoeira, criando uma conexão vibracional entre todos os presentes.
Corridos: É a fase da ação. Os corridos são cantigas rápidas que acompanham o jogo dinâmico. O cantador puxa um verso e o coro responde com um refrão fixo. A função do corrido é manter o ritmo e incentivar os jogadores, variando conforme a velocidade imposta pelo berimbau.
Na Capoeira, o cantador atua como um Griot africano: contador de histórias, educador e guardião da tradição. Com metáforas e ironias, comenta o jogo, elogia jogadas ou repreende agressividade.
6. Luthieria da Capoeira: O Ofício Sagrado da Fabricação.
A confecção de instrumentos de capoeira é um saber técnico do mestre, que une marcenaria, identidade e uma compreensão holística e ancestral da natureza e acústica. O mestre atua como artesão-cientista, escolhendo madeiras (como o beriba) e técnicas para garantir durabilidade e qualidade sonora. O berimbau, por meio de seu material, curvatura, tensão do arame e cabaça, tem timbre e volume definidos, essenciais como diretor musical e energético da roda. Esse conhecimento é transmitido oralmente e pela prática, base da pedagogia da capoeira, onde som, movimento e filosofia são inseparáveis.
6.1 A Escolha e Preparo da Madeira Biriba:
O arco do berimbau é feito de Biriba (Eschweilera ovata), uma madeira tradicionalmente usada por sua grande elasticidade e memória mecânica, permitindo que seja vergada repetidamente sem quebrar ou perder a forma.
Colheita: Mestres tradicionais cortam a madeira na lua minguante para reduzir a seiva, prevenindo pragas e rachaduras.
Secagem e Raspagem: Após o corte, a madeira deve secar por meses em local ventilado e escuro. O acabamento é feito raspando a casca com cacos de vidro e lixando até que a superfície fique lisa como o couro.
6.2 O Coração da Ressonância: A Cabaça.
A cabaça (Lagenaria siceraria) é o amplificador natural do berimbau. Sua seleção determina o "tom" do instrumento.
Limpeza: O fruto é colhido quando as sementes dentro já "chocalham". Após a abertura circular da "boca", as membranas internas e as sementes são removidas com colheres e raspadores de coco.
Afinação: A espessura das paredes da cabaça influencia a clareza do som. Uma cabaça muito grossa produz um som abafado; uma muito fina pode rachar com a vibração.
6.3 A "Têmpera" do Arame:
O arame é extraído de pneus de borracha vulcanizada, devido à alta qualidade do aço carbono.
Extração: Processo manual trabalhoso para liberar o aço da borracha.
Preparo: Limpeza com lixa de ferro (geralmente gramatura 40) para remover resíduos e ferrugem.
Educação do Aço: O termo "têmpera" na luthieria da capoeira refere-se à técnica de esticar e friccionar o arame manualmente para que ele sustente a tensão do arco sem lacear e mantenha o brilho sonoro metálico.
7. Tabela Comparativa: Rítmica e Estética dos Toques.
A musicalidade é vital na Capoeira; a execução (toques de berimbau e instrumentos) revela a filosofia e dinâmica de cada estilo. Para aprofundar, é crucial analisar as diferenças dos toques entre Capoeira Angola e Regional.
A tabela sintetiza as distinções cruciais entre os toques das duas escolas de capoeira, detalhando função, andamento, cadência e intenção. Essa diferença rítmica define o estilo de jogo e a postura dos praticantes na roda.
7.1 A Profundidade de Cada Ritmo:
Na Capoeira Angola, o toque é a narrativa:
Angola: Ritmo fundamental, lento e grave, que exige paciência, estudo do oponente e movimentação de cabeça e tronco, não é fraqueza, mas astúcia. A cadência lenta permite ao capoeirista "ler" o jogo e armar a estratégia.
São Bento Pequeno:Mais agitado que a Angola, mas lento e malicioso. Usado para introduzir uma leve mudança na dinâmica, mantendo a essência do jogo de chão.
Na Capoeira Regional, o toque é a energia:
São Bento Grande de Bimba: Toque rápido e energético, essencial na Regional, que estimula jogo de trocação direta e acrobacia, exigindo reflexos e técnica precisos.
Iuna: Toque especial para exibições, mestres ou movimentos aéreos. Enfatiza a estética e dificuldade técnica.
Cavalaria: Toque histórico e cauteloso, era usado para alertar a roda sobre a polícia ou hostis. Seu ritmo urgente serve para encerrar o jogo ou colocar em alerta, mostrando a ligação da música com a sobrevivência e estratégia.
A diferença dos toques na Capoeira está na Musicalidade: Angola sugere sutileza e reflexão; Regional incita ação e atletismo. O berimbau e a interpretação dos seus ritmos definem o diálogo na roda.
8. Conclusão: A Musicalidade como Salvaguarda do Patrimônio.
A profunda conexão entre a musicalidade e a ancestralidade é o alicerce que assegura a continuidade e a vitalidade da capoeira, transcendendo a ideia de uma mera relíquia histórica para se manifestar como uma prática cultural genuinamente pulsante e em constante evolução. Essa importância foi solenemente reconhecida em 2014, quando a Roda de Capoeira foi declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Tal reconhecimento é abrangente, englobando não apenas a beleza e a complexidade dos movimentos físicos, mas, crucially, o intrincado e rico sistema de saberes orais e musicais que são o cerne da sua essência.
Neste contexto, a música na capoeira não é um simples acompanhamento, mas sim o fio condutor vital que estabelece uma ligação inquebrável. Ela conecta o jovem praticante, em qualquer canto do planeta, com a sabedoria dos mestres do passado na Bahia e, mais remotamente, com a força e a resistência dos guerreiros banto na África. Através da sonoridade inconfundível do berimbau, da eloquência do canto (a ladainha e os corridos) e da resposta coesa do coro, a capoeira se manifesta como um poderoso mecanismo de preservação da história da resistência negra no Brasil. Ao elevar uma tecnologia cultural de matriz africana ao status de patrimônio global, a capoeira não apenas celebra uma herança, mas atua ativamente no combate ao racismo estrutural.
A salvaguarda efetiva e duradoura desta arte marcial-dança-jogo depende, de forma inequívoca, da preservação intransigente de seu "fundamento" musical. Sem a precisão técnica e a profundidade espiritual do toque correto dos instrumentos — em especial o berimbau, que comanda a roda — sem a narração histórica e a profundidade poética da ladainha, e sem a malícia (o jogo de cintura, a astúcia) inerente ao som do berimbau, a capoeira corre o risco iminente de ser descaracterizada. O perigo é ela se reduzir a uma mera ginástica desprovida de seu profundo sentido histórico, filosófico e comunitário.
Portanto, a manutenção rigorosa da luthieria tradicional dos instrumentos (como o próprio berimbau, o atabaque e o pandeiro) e o ensino disciplinado e rigoroso dos ritmos, das letras e das regras da roda são absolutamente fundamentais. É por meio desse compromisso com a tradição que o axé (a energia vital, a força espiritual) da roda pode continuar a vibrar, garantindo a união das gerações em um círculo de respeito mútuo, liberdade de expressão e preservação cultural inquebrável. É a música que dita o ritmo, a história e o propósito, mantendo viva a chama da ancestralidade em cada movimento e em cada nota.
9. Créditos e Referências.
9.1 Nota de Agradecimento:
Jadson Bruno Costa dos Santos: (Professor “Formiga”)
Agradeço sinceramente a Jadson Bruno Costa dos Santos, o Professor Formiga, pela inestimável parceria e generosidade na elaboração deste documento. Como pesquisador cadastrado no IPHAN, reconheço que a profundidade técnica e etnomusicológica deste dossiê só foi possível com sua contribuição direta e vasta vivência.
Agradeço ao Professor Formiga. Sua trajetória e obra, fundamentadas na tradição do Grupo Cordão de Ouro e em sua atuação como "nativo digital", permitiram analisar a música como o "sistema nervoso central" da roda, ferramenta essencial de resistência e salvaguarda do patrimônio imaterial.
Sua maestria como compositor, com os álbuns "Pezinho de Fulô" (2022) e "CD Canto do Mangue" (2025), foi crucial para analisar a lírica e o ritmo da capoeira atual. Suas obras documentam a transição do folclore à profissionalização, consolidando o cantador como um Griot moderno — guardião da memória ancestral e inovador.
Agradecemos a Jadson por sua resiliência e visão em projetos como "Cantando com Formiga", que mantêm o axé da roda vibrante. Seu trabalho, um tributo à sua dedicação, preserva o "pé do berimbau" como coração da nossa cultura.
Com profundo respeito e camaradagem,
Cristiano Dos Santos Rocha Pesquisador Responsável (Instrutor Alemão).
9.2 Sobre o Pesquisador.
Este relatório técnico foi concebido e coordenado por Cristiano Dos Santos Rocha, pesquisador devidamente cadastrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Sua atuação exemplar no mapeamento e salvaguarda do patrimônio cultural afro-brasileiro é um pilar para a manutenção da memória dos Mestres de Capoeira e da integridade técnica da Roda de Capoeira, assegurando que este bem cultural continue a ecoar como um símbolo de resistência e identidade nacional.
Cristiano Dos Santos Rocha, conhecido na capoeiragem como Instrutor Alemão, é aluno formado pelo eterno Mestre Vovô(BA). Atualmente, é filiado à Associação de Capoeira Ilha de Itapuã - Organizações Onças(SP), onde seu mentor é o Contramestre Cabelo Pé Serra, mantendo também conexões com suas raízes: Escola de Capoeira Casa do Vovô - Itabuna/BA.
10. Referências Bibliográficas:
IPHAN. Cartilha de Salvaguarda da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira. Brasília, 2012.
ABIB, Pedro R. A. Capoeira Angola: Cultura Popular e o Jogo dos Saberes. Salvador: EDUFBA, 2004.
MILANI, Luciano; DINIZ, Francisco F. F. Estudo Sobre Toques de Berimbau. Portal Capoeira, 2005.
IFG. Relatório Conclusivo sobre a Musicalidade da Capoeira. 2018.
CAPOEIRA ALTO ASTRAL. Caixixi, Reco-reco e Agogô: Detalhes Rítmicos e Históricos.
PANGOLIN, Mestre Jean. A Bateria da Angola de Pastinha: A Organização dos Berimbaus. Portal Capoeira.
KANDUS, Alejandra et al. A física das oscilações mecânicas em instrumentos musicais: exemplo do berimbau. Revista Brasileira de Ensino de Física, 2005.
PAPOEIRA. Como fazer um Berimbau: A Biriba e o Processo de Luthieria. 2020.
UNESCO. Roda de Capoeira declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade. Paris, 2014.
OLIVEIRA, Hugo. Música na Capoeira - Corridos, Quadra, Chula e Ladainha. WikiFavelas, 2021.
SANTOS, Leandro. Ancestralidade e a Chamada na Capoeira: Tese PPGAS.
PERNAMBUCO PERCUSSIVO. Acervo de Instrumentos: O Berimbau.
Referências citadas:
1. Cultura Africana e Afrobrasileira a partir da Capoeira Angola - IFG, https://www.ifg.edu.br/attachments/article/6549/Relat%C3%B3rio%20Conclusivo%20Capoeira.pdf
2. TOQUES | caisdabahia - Cais da Bahia, https://www.caisdabahia.com.br/toques
3. Cultura afro-brasileira: história, características - Brasil Escola, https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/cultura-1.htm
4. Como Fazer Meu Berimbau - A Cabaça - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=RFVNJgVbD3U
5. 7 Toques de Berimbau da Capoeira Regional - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=7fxwvHCblDk
6. The Berimbau in Capoeira - Arcomusical, https://www.arcomusical.com/wp-content/uploads/2019/02/0.-Berimbau-de-Capoeira-COMPLETE-IN-PROGRESS-20190206.pdf
7. Como tirar o arame (ou aço) do pneu para fazer berimbau. - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=7uHi2TlWAmA
8. Preparando Arame para berimbau. - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=IY1OCQmHlaQ
9. A f´ısica das oscilaç˜oes mecânicas em instrumentos musicais: Exemplo do berimbau - Sociedade Brasileira de Física, https://sbfisica.org.br/rbef/pdf/051207
10. Como fazer um Berimbau: Parte 1 - A Beriba - Papoeira.com, https://papoeira.com/pt/como-fazer-um-berimbau-parte-1-a-beriba/
11. A "bateria" da Angola de Pastinha: A organização dos berimbaus - Portal Capoeira, https://portalcapoeira.com/capoeira/fundamentos-da-capoeira/a-bateria-da-angola-de-pastinha-a-organizacao-dos-berimbaus/
12. COMO FAZER A LIMPEZA , CORTE E PREPARAÇÃO DA CABAÇA - ENSINADO POR MESTRE PEIXE -VIDEO 1, https://www.youtube.com/watch?v=CespFZtSWSc
13. Roda de Capoeira é declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade, https://brasil.un.org/pt-br/55365-roda-de-capoeira-%C3%A9-declarada-patrim%C3%B4nio-imaterial-da-humanidade
14. Caxixi, Reco-Reco e Agôgô | Capoeira Alto Astral, https://capoeiraaltoastral.wordpress.com/sobre-capoeira/caixixi-reco-reco-e-agogo/
15. Os Toques da Capoeira, https://capoeiraespeto.wordpress.com/2018/03/17/os-toques-da-capoeira/
16. Música na Capoeira - Corridos, Quadra, Chula e Ladainha, https://wikifavelas.com.br/index.php/M%C3%BAsica_na_Capoeira_-_Corridos,_Quadra,_Chula_e_Ladainha
17. A Música na Capoeira, https://capoeiraespeto.wordpress.com/2017/12/02/a-musica-na-capoeira/
18. SALVAGUARDA DA RODA DE CAPOEIRA E DO OFÍCIO ... - IPHAN, http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Cartilha_salvaguarda_capoeira.pdf 19. Berimbau - Pernambuco percusivo, https://www.pernambucopercussivo.com.br/acervo/instrumentos/berimbau
20. How to make a Berimbau: Part 2 - Choosing and Making the Cabaça - Papoeira.com, https://papoeira.com/en/how-to-make-a-berimbau-part-2-choosing-and-making-the-cabaca/
21. LadainhasCorridosCapoeira.pdf - Repositório Institucional - Universidade Federal de Uberlândia, https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/20082/1/LadainhasCorridosCapoeira.pdf 22. Roda de capoeira recebe título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade - CNM, https://cnm.org.br/comunicacao/noticias/roda-de-capoeira-recebe-t%C3%ADtulo-de-patrim%C3%B4nio-cultural-imaterial-da-humanidade
23. A CAPOEIRA ANGOLA COMO ESPAÇO DE RESISTÊNCIA ..., https://periodicos.ufs.br/pontadelanca/article/download/12490/10752/40321
24. Estudo Sobre Toques de Berimbau | Portal Capoeira, https://portalcapoeira.com/capoeira/publicacoes-e-artigos/estudo-sobre-toques-de-berimbau/
25. A física das oscilações mecânicas em instrumentos musicais: exemplo do berimbau, https://www.scielo.br/j/rbef/a/DqDwhHCJy5jB5mxRHmtsdsS/?lang=pt
26. Tópico 10 | Curso de Berimbau | Como colocar o arame no Berimbau? BÔNUS - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=OtoD8xXnO1g
27. Roda de Capoeira: Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=y_tqFc6zUE8
28. Gingando contra silêncios e invisibilidades: de capoeiristas do século XXI à Guerra do Paraguai - TEDE, https://www.tede.ufam.edu.br/bitstream/tede/11039/5/TESE_LeandroSantos_PPGAS.pdf
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