Musicalidade a Alma da Capoeira: A Bateria, Orquestra, Estrutura, Hierarquia e funções Instrumentais.

 Musicalidade da Capoeira.

 Relatório Técnico e Etnomusicológico.

PRÉVIA EM VIDEO:

Credenciamento: Pesquisador Cadastrado no IPHAN.

 São Paulo/SP.

Janeiro de 2026.

Sumário:

  • Introdução.

  • raízes-históricas-a-herança-banto-e-a-cronosofia-da-resistência.

  • a-bateria-orquestra-estrutura-hierarquia-e-funções-instrumentais.

  • 3.1a-bateria-da-capoeira-angola-o-rigor-da-tradição.

  • 3.2a-charanga-da-capoeira-regional-a-revolução-pedagógica-de-bimba.

4. a-ciência-do-berimbau-condução-acústica-e-comunicação.

  • 4.1 acústica-e-técnica-de-execução.

  • 4.2 a-semântica-dos-toques-a-linguagem-do-jogo.

5. A Lírica e o Canto: A Oralidade como Arquivo Histórico.

  • 5.1 a-estrutura-tripartite-do-canto.

6. luthieria-da-capoeira-o-ofício-sagrado-da-fabricação.

  • 6.1 a-escolha-e-preparo-da-madeira-biriba.

  • 6.2 o-coração-da-ressonância-a-cabaça.

  • 6.3 a-têmpera-do-arame.

7. tabela-comparativa-rítmica-e-estética-dos-toques.

  • 7.1 A Profundidade de Cada Ritmo.

8. conclusão-a-musicalidade-como-salvaguarda-do-patrimônio.

9. Créditos e Referências.

  • 9.1 Nota de agradecimento.

Jadson Bruno Costa dos Santos: (Professor “Formiga”)

  • 9.2 Sobre o pesquisador.

10. referências bibliográficas.

1. Introdução.

A capoeira é mais que luta ou coreografia; é uma manifestação cultural afro-brasileira e um sistema de musicalidade ritualizada. A música atua como o sistema nervoso central do jogo, coordenando intenção, pulsação e cadência dos movimentos na roda. Não é mero acompanhamento, mas a força motriz que define velocidade, estilo e propósito. O berimbau, instrumento regente, dita a "lei" do jogo com seus toques (Angola, São Bento Grande, Iúna), estabelecendo o contexto ritual e a intensidade do embate.

A musicalidade da Capoeira tem raízes africanas, servindo como repositório de memória, resistência e história. Sua estrutura de canto (ladainhas, chulas e corridos) e a percussão (atabaques, pandeiros, agogôs e berimbaus) criam uma polirritmia complexa, que é um código rítmico e âncora cultural. Essa música evoluiu como ferramenta de comunicação codificada, disfarçando a luta como dança para os opressores. Na roda, a música é a dramaturga invisível que garante que o jogo mantenha sua essência: a arte de lutar pela liberdade, oculta na arte de tocar e cantar.


2. Raízes Históricas: A Herança Banto e a Cronosofia da Resistência.

A musicalidade da capoeira tem origem na diáspora banto (Angola, Congo, Moçambique). Para esses povos, a música era essencial, veículo para manter a linhagem e o culto aos antepassados. Baseada na cosmovisão banto da circularidade do tempo (cronosofia), a roda de capoeira suspende o tempo linear para invocar força ancestral.


Durante o Brasil colonial e imperial, a musicalidade da capoeira serviu como "camuflagem estratégica" para a luta de libertação dos escravizados. Ritmos e cantigas permitiam disfarçar o treinamento marcial como dança ou celebração, evitando a repressão. Essa subversão transformou a música em ferramenta de resistência didática, preservando o conhecimento africano contra o epistemicídio escravagista.


A herança banto é evidente na música da capoeira, com a preferência por percussão e o arco musical, cujo predecessor direto é o urucungo ou hungu angolano. O ritual angolano do Ngolo (dança da zebra) é base rítmica e cinética que, no Brasil, fundiu-se a outras culturas. Essa música de resistência servia como código de comunicação para escravizados organizarem fugas, alertar sobre capitães-do-mato e preservar a dignidade.


3. A Bateria (Orquestra): Estrutura, Hierarquia e Funções Instrumentais.

A bateria é a alma e o centro de comando da roda de capoeira, representando a herança africana. Sua formação e cada instrumento possuem função técnica e simbólica específica. A orquestra é a guardiã do ritmo, da melodia e do "fundamento" (normas éticas e rituais). O berimbau, instrumento mestre, define o tipo, a velocidade e a energia do jogo.

A composição da bateria reflete diretamente as distintas filosofias e linhagens da capoeira, estabelecendo uma distinção clara entre as baterias da Capoeira Angola e da Capoeira Regional:

  1. Bateria da Capoeira Angola: Caracterizada por ser mais numerosa e seguir a tradição estabelecida pelo Mestre Pastinha. Sua ênfase está na sutileza, no ritual, na malícia e nos movimentos rasteiros e lentos.

    • Composição Típica: Três berimbaus (Gunga, Médio/Centro, Viola), dois pandeiros, um atabaque, um agogô e um reco-reco.

    • Função: O Gunga (o berimbau maior e de som mais grave) é o líder incontestável, a voz do mestre, ditando a cadência lenta e o tipo de jogo, exigindo introspecção e diálogo corporal dos jogadores.

  1. Bateria da Capoeira Regional: Desenvolvida e formalizada pelo Mestre Bimba, esta vertente prioriza a objetividade, a eficácia do movimento, a velocidade e a sequência de golpes.

    • Composição Típica: Um único berimbau (o mestre), dois pandeiros. Em algumas variações modernas, o atabaque é incluído, mas é tradicionalmente mais concisa.

    • Função: O berimbau solitário, sob a liderança do mestre, estabelece ritmos mais rápidos e marciais (como o São Bento Grande da Regional), incentivando um jogo mais acrobático e atlético, focado no desenvolvimento físico e técnico do aluno.

A bateria de capoeira é o cerne da roda, comandando, advertindo e inspirando. Ela expressa a história e as filosofias complementares dos mestres Pastinha (tradição) e Bimba (inovação/sistematização).

3.1 A Bateria da Capoeira Angola: O Rigor da Tradição.

Na Capoeira Angola, sob a orientação do Mestre Pastinha, a musicalidade é um pilar central e tradicional. A bateria, ou orquestra de capoeira, é um conjunto completo e ligado a uma hierarquia formal.

A organização dos instrumentos reflete profundamente as estruturas rituais e simbólicas do Candomblé, onde cada instrumento e tocador têm lugar e função específicos. A disposição no pé do berimbau é quase sagrada, transcendendo a acústica.

A bateria resulta em um som denso, profundo e geralmente mais lento, ideal para a introspecção e o cultivo da malícia (astúcia e antecipação) dos capoeiristas. A música determina a cadência, energia e profundidade do jogo de Angola.

A composição tradicional da bateria de Angola, rigorosamente mantida, inclui:

Instrumento

Quantidade

Função Técnica

Simbolismo Rritual

Berimbau Gunga

1

Som grave. Dita o ritmo base e o tempo do jogo.

O "Pai" ou autoridade máxima da roda.

Berimbau Médio

1

Som intermediário. Faz o contraponto ao Gunga.

A "Mãe" que sustenta e equilibra.

Berimbau Viola

1

Som agudo. Responsável pelos repiques e improvisos.

O "Filho" que traz a vivacidade e o floreio.

Atabaque

1

Marca o pulso fundamental, dando peso à bateria.

A conexão com a terra e o pulso vital.

Pandeiro

2

Mantém a cadência e o preenchimento rítmico.

A alegria e a fluidez do jogo.

Agogô

1

Marca o tempo metálico, geralmente no ritmo I sexá.

O chamado para a atenção rítmica.

Reco-reco

1

Adiciona uma textura rascante e contínua.

O ruído que preenche o silêncio entre os golpes.


Nessa configuração instrumental e ritualística da Capoeira, o Berimbau Gunga assume a posição de regente absoluto e figura de comando inquestionável. Ele não é apenas um instrumento musical; é o condutor do ritmo, da energia (axé) e da própria dinâmica da Roda.

O Papel Central do Gunga:

  1. Início e Fim do Jogo: O toque grave do Gunga marca o início e o fim exato do jogo de Capoeira. Sua batida ressonante é a marcação fundamental para todos os participantes.

  2. Ditador de Ritmo e Toque: O Gunga define o ritmo (Angola, São Bento Grande, Iúna, etc.) e a velocidade do jogo. Sua alteração, mesmo sutil, é um comando instantâneo.

  3. A Coordenação da Bateria exige que Berimbau Médio (Centro), Viola (Violão), atabaques, pandeiros e agogô sigam as intenções do Gunga. O Médio dialoga, o Viola improvisa, mas o Gunga estabelece a base rítmica e a "lei".

  4. Comando do Jogo: O Gunga comanda o jogo na Roda, e os capoeiristas ajustam a intensidade, fluidez, golpes e estratégia. Toques lentos (Angola) pedem movimentos próximos e estratégicos; toques rápidos (São Bento Grande) estimulam um jogo acrobático e rápido.

A Tríade Simbólica dos Berimbaus:

A disposição hierárquica e funcional dos três berimbaus (Gunga, Médio e Viola) reflete uma profunda organização social e filosófica, frequentemente associada à estrutura familiar e comunitária africana e afro-brasileira:

  1. O Gunga (Pai): Representa a ancestralidade, a autoridade, a sabedoria e a base. É a figura que estabelece a ordem e a tradição. Seu som é o mais grave, evocando a estabilidade e a profundidade.

  2. O Médio ou de Centro (Mãe): Atua como o elo de ligação, o mediador entre a autoridade do Gunga e a liberdade do Viola. Seu papel é sustentar o ritmo do Gunga, preenchendo o espaço sonoro, garantindo a coesão rítmica e harmonizando a dinâmica.

  3. O Viola ou Violão (Filho): É o elemento da inovação, da criatividade e da liberdade. Seu som é o mais agudo, e é o responsável pelos floreios e improvisações rítmicas. Embora traga a novidade, ele o faz sempre sobre a base e a permissão estabelecida pelo Gunga e sustentada pelo Médio.

Essa "tríade pai-mãe-filho" não apenas sustenta a harmonia sonora e ritual da Roda de Capoeira, mas também simboliza a interdependência e o respeito mútuo necessários para a manutenção da organização social do grupo. É um microcosmo da vida comunitária, onde a tradição (Gunga), a coesão (Médio) e a inovação (Viola) trabalham em conjunto para sustentar o axé e a continuidade da Capoeira.


3.2 A Charanga da Capoeira Regional: A Revolução Pedagógica de Bimba.

Mestre Bimba, ao criar a Capoeira Regional na década de 1930, promoveu uma mudança na musicalidade, adotando a formação instrumental concisa que chamou de "charanga".

Seu objetivo era garantir a máxima eficiência marcial e velocidade do jogo, não desvalorizar a cultura musical. A charanga de Bimba era um conjunto minimalista e funcional, composto por um berimbau (geralmente o médio, para o ritmo base) e dois pandeiros.

A instrumentação reduzida da Capoeira Regional foi uma escolha técnica de Bimba para evitar que a complexa polirritmia da Capoeira Angola tradicional ofuscasse a clareza das instruções do mestre e a rapidez dos golpes.

Na Regional, o berimbau é central e 'ditatorial', mantendo um ritmo acelerado e constante que impulsiona um confronto de alta voltagem física e técnica. A música, assim, catalisa a performance atlética e a disciplina marcial.


4. A Ciência do Berimbau: Condução, Acústica e Comunicação.

O berimbau é o coração e a voz de comando da roda de Capoeira, atuando como o maestro que dita o ritmo e o estilo do jogo. Sua estrutura simples (arco de madeira flexível/verga, arame de aço e cabaça ressonadora) esconde uma complexidade acústica e cultural impressionante.


O berimbau vai além de marcar o tempo na Capoeira; ele se comunica com jogadores e mestres através de toques com significados distintos. O Toque de Angola induz um jogo lento e estratégico (mandinga), enquanto o Toque de São Bento Grande acelera o ritmo, incentivando o jogo acrobático e rápido. Toques como o Cavalaria serviam historicamente para alertar sobre a polícia, mostrando seu papel vital na comunicação e preservação da prática.


A riqueza rítmica do berimbau é gerada pela baqueta (percute a corda), pelo dobrão ou ficha (altera o tom) e pelo caxixi (chocalho de mão). O berimbau é mais que música: é o narrador, guardião da tradição e força vital que harmoniza a coreografia e o diálogo marcial da Capoeira.

4.1 Acústica e Técnica de Execução.

O som do berimbau é produzido pela percussão de uma vareta de madeira contra um arame tensionado. A nota fundamental é alterada pelo uso de um "dobrão" (moeda de metal ou pedra arredondada). Existem três sons básicos que compõem a linguagem do instrumento:


  • Som Solto (Grave): O arame vibra livremente, com a cabaça afastada do abdômen, produzindo uma nota profunda e ressonante.


  • Som Preso (Agudo): O dobrão pressiona o arame com força, aumentando a frequência da vibração e produzindo uma nota clara e alta.


  • Chiado (Buzz): O dobrão apenas encosta levemente no arame, criando uma vibração metálica ruidosa, essencial para a marcação do ritmo.


O famoso efeito "wah-wah" é uma técnica de filtragem timbral. Ao aproximar a abertura da cabaça do corpo, o instrumentista altera as propriedades de ressonância do ar dentro da cabaça, abafando certas frequências e criando um som pulsante que imita a respiração humana.

4.2 A Semântica dos Toques: A Linguagem do Jogo.

Os toques são códigos que os capoeiristas devem decifrar instantaneamente. Eles não são apenas ritmos; são comandos táticos.


  • Toque de Angola: É o ritmo da tradição. Lento, melódico e carregado de malícia. Ele convida a um jogo de solo, onde os movimentos são feitos com o máximo de controle e estratégia.


  • São Bento Grande de Regional: Criado por Bimba, é um toque de guerra. Rápido, forte e eficiente, exige que os jogadores mantenham-se em pé, focando na precisão dos golpes e na rapidez das esquivas.


  • Iúna: Um toque sagrado e técnico. Tradicionalmente, é reservado para formados e mestres. O jogo de Iúna é uma demonstração de elegância, envolvendo movimentos acrobáticos e balões (projeções onde o jogador cai em pé).


  • Cavalaria: Toque histórico que imita o trotar dos cavalos. Alertava sobre a chegada da polícia (especialmente a montada), fazendo a luta virar dança inofensiva ou encerrando a roda.


  • Santa Maria: Um toque que carrega uma aura de perigo. Historicamente associado ao uso de navalhas nos pés ou mãos, sinalizando um jogo de extrema agressividade e risco.


5. A Lírica e o Canto: A Oralidade como Arquivo Histórico.

Se os instrumentos são o corpo da capoeira, o canto é sua alma, sopro vital e memória viva. A lírica da capoeira é uma literatura oral sofisticada, repositório histórico-cultural.

Essa tradição vocal não só preserva a história da diáspora afro-brasileira e a resistência à escravidão, mas também imortaliza mestres, mantendo vivo seu legado para inspirar novas gerações.

O canto na Capoeira não é só registro, mas veículo de lições morais, éticas e de sobrevivência, com provérbios e conselhos sobre respeito, humildade e comunidade.

No centro da roda, o sistema de "chamada e resposta" (côro) é o pilar social e energético. O solista (cantador ou mestre) faz a "chamada" e o coro responde, garantindo que o axé da roda se mantenha. O canto define o ritmo, velocidade e estilo do jogo, modulando a intensidade da manifestação coletiva de arte, luta e cultura..

5.1 A Estrutura Tripartite do Canto.

O ritual sonoro da capoeira segue uma ordem específica, especialmente na modalidade Angola:


  1. Ladainha: É o prólogo. Cantada em solo, geralmente pelo mestre que segura o berimbau gunga. Durante a ladainha, os dois jogadores permanecem agachados ao pé do berimbau, em sinal de respeito e concentração. A letra costuma ser uma narrativa histórica ou filosófica, invocando a ancestralidade e preparando o campo espiritual da roda.


  1. Chula ou Louvação: É a transição. São versos curtos de saudação. O cantador puxa uma louvação ("Iê, viva meu mestre!") e o coro responde imediatamente ("Iê, viva meu mestre, camará!"). Esse momento serve para saudar Deus, os mestres e a própria capoeira, criando uma conexão vibracional entre todos os presentes.


  1. Corridos: É a fase da ação. Os corridos são cantigas rápidas que acompanham o jogo dinâmico. O cantador puxa um verso e o coro responde com um refrão fixo. A função do corrido é manter o ritmo e incentivar os jogadores, variando conforme a velocidade imposta pelo berimbau.


Na Capoeira, o cantador atua como um Griot africano: contador de histórias, educador e guardião da tradição. Com metáforas e ironias, comenta o jogo, elogia jogadas ou repreende agressividade.


6. Luthieria da Capoeira: O Ofício Sagrado da Fabricação.

A confecção de instrumentos de capoeira é um saber técnico do mestre, que une marcenaria, identidade e uma compreensão holística e ancestral da natureza e acústica. O mestre atua como artesão-cientista, escolhendo madeiras (como o beriba) e técnicas para garantir durabilidade e qualidade sonora. O berimbau, por meio de seu material, curvatura, tensão do arame e cabaça, tem timbre e volume definidos, essenciais como diretor musical e energético da roda. Esse conhecimento é transmitido oralmente e pela prática, base da pedagogia da capoeira, onde som, movimento e filosofia são inseparáveis.

6.1 A Escolha e Preparo da Madeira Biriba:

O arco do berimbau é feito de Biriba (Eschweilera ovata), uma madeira tradicionalmente usada por sua grande elasticidade e memória mecânica, permitindo que seja vergada repetidamente sem quebrar ou perder a forma.

  • Colheita: Mestres tradicionais cortam a madeira na lua minguante para reduzir a seiva, prevenindo pragas e rachaduras.

  • Secagem e Raspagem: Após o corte, a madeira deve secar por meses em local ventilado e escuro. O acabamento é feito raspando a casca com cacos de vidro e lixando até que a superfície fique lisa como o couro.


6.2 O Coração da Ressonância: A Cabaça.

A cabaça (Lagenaria siceraria) é o amplificador natural do berimbau. Sua seleção determina o "tom" do instrumento.

  1. Limpeza: O fruto é colhido quando as sementes dentro já "chocalham". Após a abertura circular da "boca", as membranas internas e as sementes são removidas com colheres e raspadores de coco.

  2. Afinação: A espessura das paredes da cabaça influencia a clareza do som. Uma cabaça muito grossa produz um som abafado; uma muito fina pode rachar com a vibração.


6.3 A "Têmpera" do Arame:

O arame é extraído de pneus de borracha vulcanizada, devido à alta qualidade do aço carbono.

  • Extração: Processo manual trabalhoso para liberar o aço da borracha.

  • Preparo: Limpeza com lixa de ferro (geralmente gramatura 40) para remover resíduos e ferrugem.

  • Educação do Aço: O termo "têmpera" na luthieria da capoeira refere-se à técnica de esticar e friccionar o arame manualmente para que ele sustente a tensão do arco sem lacear e mantenha o brilho sonoro metálico.


7. Tabela Comparativa: Rítmica e Estética dos Toques.

A musicalidade é vital na Capoeira; a execução (toques de berimbau e instrumentos) revela a filosofia e dinâmica de cada estilo. Para aprofundar, é crucial analisar as diferenças dos toques entre Capoeira Angola e Regional.


A tabela sintetiza as distinções cruciais entre os toques das duas escolas de capoeira, detalhando função, andamento, cadência e intenção. Essa diferença rítmica define o estilo de jogo e a postura dos praticantes na roda.


Aspecto

Capoeira Angola

Capoeira Regional

Andamento (Tempo)

Lento, cadenciado, malicioso, mais próximo ao ritmo africano original.

Rápido, vibrante, direto, mais atlético e moderno.

Função Principal do Toque

Narrar a história, evocar o ritual, ditar a malícia e a estratégia do jogo.

Ditar o ritmo da luta, a velocidade dos golpes e a performance acrobática.

Toques Essenciais/Mais Comuns

Angola (o toque base), São Bento Pequeno, Santa Maria (raro, mas fundamental).

São Bento Grande de Bimba, Iuna, Cavalaria, Banguela.

Dinâmica do Jogo (Reflexo do Toque)

Jogo rasteiro, próximo ao chão, focado na mandinga, dissimulação e contra-ataque.

Jogo em pé, com saltos, giros e movimentos acrobáticos; foco na eficiência do ataque e defesa.

Organização da Bateria

Mais instrumentos de percussão (pandeiro, atabaque, agogô, reco-reco), com o berimbau Gunga dominando a marcação lenta.

Bateria mais concisa, priorizando a clareza rítmica para o movimento rápido. O Gunga pode ter um papel mais "agitador".


7.1 A Profundidade de Cada Ritmo:

Na Capoeira Angola, o toque é a narrativa:

  • Angola: Ritmo fundamental, lento e grave, que exige paciência, estudo do oponente e movimentação de cabeça e tronco, não é fraqueza, mas astúcia. A cadência lenta permite ao capoeirista "ler" o jogo e armar a estratégia.

  • São Bento Pequeno:Mais agitado que a Angola, mas lento e malicioso. Usado para introduzir uma leve mudança na dinâmica, mantendo a essência do jogo de chão.

Na Capoeira Regional, o toque é a energia:

  • São Bento Grande de Bimba: Toque rápido e energético, essencial na Regional, que estimula jogo de trocação direta e acrobacia, exigindo reflexos e técnica precisos.

  • Iuna: Toque especial para exibições, mestres ou movimentos aéreos. Enfatiza a estética e dificuldade técnica.

  • Cavalaria: Toque histórico e cauteloso, era usado para alertar a roda sobre a polícia ou hostis. Seu ritmo urgente serve para encerrar o jogo ou colocar em alerta, mostrando a ligação da música com a sobrevivência e estratégia.

A diferença dos toques na Capoeira está na Musicalidade: Angola sugere sutileza e reflexão; Regional incita ação e atletismo. O berimbau e a interpretação dos seus ritmos definem o diálogo na roda.


Toque

Vertente Dominante

Característica Rítmica

Intenção do Jogo

Angola

Angola

Lento, ternário, melódico.

Jogo baixo, malicioso e ritualístico.

São Bento Pequeno

Angola

Cadenciado, "angola invertida".

Jogo técnico, amistoso e elegante.

São Bento Grande

Regional (Bimba)

Rápido, binário, agressivo.

Jogo em pé, veloz e marcial.

Benguela

Regional / Contemporânea

Médio-rápido, compassado.

Jogo de solo com floreios e agilidade.

Iúna

Regional

Solo melódico no berimbau.

Jogo exclusivo para mestres e graduados.

Cavalaria

Histórica / Regional

Galopado, síncope rápida.

Alerta de perigo ou jogo muito pesado.

Amazonas

Regional

Festivo, cadência aberta.

Saudação a visitantes e momentos de festa.

Santa Maria

Tradicional

Rápido e repetitivo.

Jogo de exibição ou com armas (antigamente).


8. Conclusão: A Musicalidade como Salvaguarda do Patrimônio.

A profunda conexão entre a musicalidade e a ancestralidade é o alicerce que assegura a continuidade e a vitalidade da capoeira, transcendendo a ideia de uma mera relíquia histórica para se manifestar como uma prática cultural genuinamente pulsante e em constante evolução. Essa importância foi solenemente reconhecida em 2014, quando a Roda de Capoeira foi declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Tal reconhecimento é abrangente, englobando não apenas a beleza e a complexidade dos movimentos físicos, mas, crucially, o intrincado e rico sistema de saberes orais e musicais que são o cerne da sua essência.

Neste contexto, a música na capoeira não é um simples acompanhamento, mas sim o fio condutor vital que estabelece uma ligação inquebrável. Ela conecta o jovem praticante, em qualquer canto do planeta, com a sabedoria dos mestres do passado na Bahia e, mais remotamente, com a força e a resistência dos guerreiros banto na África. Através da sonoridade inconfundível do berimbau, da eloquência do canto (a ladainha e os corridos) e da resposta coesa do coro, a capoeira se manifesta como um poderoso mecanismo de preservação da história da resistência negra no Brasil. Ao elevar uma tecnologia cultural de matriz africana ao status de patrimônio global, a capoeira não apenas celebra uma herança, mas atua ativamente no combate ao racismo estrutural.

A salvaguarda efetiva e duradoura desta arte marcial-dança-jogo depende, de forma inequívoca, da preservação intransigente de seu "fundamento" musical. Sem a precisão técnica e a profundidade espiritual do toque correto dos instrumentos — em especial o berimbau, que comanda a roda — sem a narração histórica e a profundidade poética da ladainha, e sem a malícia (o jogo de cintura, a astúcia) inerente ao som do berimbau, a capoeira corre o risco iminente de ser descaracterizada. O perigo é ela se reduzir a uma mera ginástica desprovida de seu profundo sentido histórico, filosófico e comunitário.

Portanto, a manutenção rigorosa da luthieria tradicional dos instrumentos (como o próprio berimbau, o atabaque e o pandeiro) e o ensino disciplinado e rigoroso dos ritmos, das letras e das regras da roda são absolutamente fundamentais. É por meio desse compromisso com a tradição que o axé (a energia vital, a força espiritual) da roda pode continuar a vibrar, garantindo a união das gerações em um círculo de respeito mútuo, liberdade de expressão e preservação cultural inquebrável. É a música que dita o ritmo, a história e o propósito, mantendo viva a chama da ancestralidade em cada movimento e em cada nota.


9. Créditos e Referências.

9.1 Nota de Agradecimento:

Jadson Bruno Costa dos Santos: (Professor “Formiga”)

Agradeço sinceramente a Jadson Bruno Costa dos Santos, o Professor Formiga, pela inestimável parceria e generosidade na elaboração deste documento. Como pesquisador cadastrado no IPHAN, reconheço que a profundidade técnica e etnomusicológica deste dossiê só foi possível com sua contribuição direta e vasta vivência.

Agradeço ao Professor Formiga. Sua trajetória e obra, fundamentadas na tradição do Grupo Cordão de Ouro e em sua atuação como "nativo digital", permitiram analisar a música como o "sistema nervoso central" da roda, ferramenta essencial de resistência e salvaguarda do patrimônio imaterial.

Sua maestria como compositor, com os álbuns "Pezinho de Fulô" (2022) e "CD Canto do Mangue" (2025), foi crucial para analisar a lírica e o ritmo da capoeira atual. Suas obras documentam a transição do folclore à profissionalização, consolidando o cantador como um Griot moderno — guardião da memória ancestral e inovador.

Agradecemos a Jadson por sua resiliência e visão em projetos como "Cantando com Formiga", que mantêm o axé da roda vibrante. Seu trabalho, um tributo à sua dedicação, preserva o "pé do berimbau" como coração da nossa cultura.

Com profundo respeito e camaradagem,

Cristiano Dos Santos Rocha Pesquisador Responsável (Instrutor Alemão).

9.2 Sobre o Pesquisador.

Este relatório técnico foi concebido e coordenado por Cristiano Dos Santos Rocha, pesquisador devidamente cadastrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Sua atuação exemplar no mapeamento e salvaguarda do patrimônio cultural afro-brasileiro é um pilar para a manutenção da memória dos Mestres de Capoeira e da integridade técnica da Roda de Capoeira, assegurando que este bem cultural continue a ecoar como um símbolo de resistência e identidade nacional.

Cristiano Dos Santos Rocha, conhecido na capoeiragem como Instrutor Alemão, é aluno formado pelo eterno Mestre Vovô(BA). Atualmente, é filiado à Associação de Capoeira Ilha de Itapuã - Organizações Onças(SP), onde seu mentor é o Contramestre Cabelo Pé Serra, mantendo também conexões com suas raízes: Escola de Capoeira Casa do Vovô - Itabuna/BA.


10. Referências Bibliográficas:

  1. IPHAN. Cartilha de Salvaguarda da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira. Brasília, 2012.

  2. ABIB, Pedro R. A. Capoeira Angola: Cultura Popular e o Jogo dos Saberes. Salvador: EDUFBA, 2004.

  3. MILANI, Luciano; DINIZ, Francisco F. F. Estudo Sobre Toques de Berimbau. Portal Capoeira, 2005.

  4. IFG. Relatório Conclusivo sobre a Musicalidade da Capoeira. 2018.

  5. CAPOEIRA ALTO ASTRAL. Caixixi, Reco-reco e Agogô: Detalhes Rítmicos e Históricos.

  6. PANGOLIN, Mestre Jean. A Bateria da Angola de Pastinha: A Organização dos Berimbaus. Portal Capoeira.

  7. KANDUS, Alejandra et al. A física das oscilações mecânicas em instrumentos musicais: exemplo do berimbau. Revista Brasileira de Ensino de Física, 2005.

  8. PAPOEIRA. Como fazer um Berimbau: A Biriba e o Processo de Luthieria. 2020.

  9. UNESCO. Roda de Capoeira declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade. Paris, 2014.

  10. OLIVEIRA, Hugo. Música na Capoeira - Corridos, Quadra, Chula e Ladainha. WikiFavelas, 2021.

  11. SANTOS, Leandro. Ancestralidade e a Chamada na Capoeira: Tese PPGAS.

  12. PERNAMBUCO PERCUSSIVO. Acervo de Instrumentos: O Berimbau.


Referências citadas:

1. Cultura Africana e Afrobrasileira a partir da Capoeira Angola - IFG, https://www.ifg.edu.br/attachments/article/6549/Relat%C3%B3rio%20Conclusivo%20Capoeira.pdf 

2. TOQUES | caisdabahia - Cais da Bahia, https://www.caisdabahia.com.br/toques 

3. Cultura afro-brasileira: história, características - Brasil Escola, https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/cultura-1.htm 

4. Como Fazer Meu Berimbau - A Cabaça - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=RFVNJgVbD3U 

5. 7 Toques de Berimbau da Capoeira Regional - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=7fxwvHCblDk 

6. The Berimbau in Capoeira - Arcomusical, https://www.arcomusical.com/wp-content/uploads/2019/02/0.-Berimbau-de-Capoeira-COMPLETE-IN-PROGRESS-20190206.pdf 

7. Como tirar o arame (ou aço) do pneu para fazer berimbau. - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=7uHi2TlWAmA 

8. Preparando Arame para berimbau. - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=IY1OCQmHlaQ 

9. A f´ısica das oscilaç˜oes mecânicas em instrumentos musicais: Exemplo do berimbau - Sociedade Brasileira de Física, https://sbfisica.org.br/rbef/pdf/051207 

10. Como fazer um Berimbau: Parte 1 - A Beriba - Papoeira.com, https://papoeira.com/pt/como-fazer-um-berimbau-parte-1-a-beriba/ 

11. A "bateria" da Angola de Pastinha: A organização dos berimbaus - Portal Capoeira, https://portalcapoeira.com/capoeira/fundamentos-da-capoeira/a-bateria-da-angola-de-pastinha-a-organizacao-dos-berimbaus/ 

12. COMO FAZER A LIMPEZA , CORTE E PREPARAÇÃO DA CABAÇA - ENSINADO POR MESTRE PEIXE -VIDEO 1, https://www.youtube.com/watch?v=CespFZtSWSc 

13. Roda de Capoeira é declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade, https://brasil.un.org/pt-br/55365-roda-de-capoeira-%C3%A9-declarada-patrim%C3%B4nio-imaterial-da-humanidade 

14. Caxixi, Reco-Reco e Agôgô | Capoeira Alto Astral, https://capoeiraaltoastral.wordpress.com/sobre-capoeira/caixixi-reco-reco-e-agogo/ 

15. Os Toques da Capoeira, https://capoeiraespeto.wordpress.com/2018/03/17/os-toques-da-capoeira/ 

16. Música na Capoeira - Corridos, Quadra, Chula e Ladainha, https://wikifavelas.com.br/index.php/M%C3%BAsica_na_Capoeira_-_Corridos,_Quadra,_Chula_e_Ladainha 

17. A Música na Capoeira, https://capoeiraespeto.wordpress.com/2017/12/02/a-musica-na-capoeira/ 

18. SALVAGUARDA DA RODA DE CAPOEIRA E DO OFÍCIO ... - IPHAN, http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Cartilha_salvaguarda_capoeira.pdf 19. Berimbau - Pernambuco percusivo, https://www.pernambucopercussivo.com.br/acervo/instrumentos/berimbau 

20. How to make a Berimbau: Part 2 - Choosing and Making the Cabaça - Papoeira.com, https://papoeira.com/en/how-to-make-a-berimbau-part-2-choosing-and-making-the-cabaca/ 

21. LadainhasCorridosCapoeira.pdf - Repositório Institucional - Universidade Federal de Uberlândia, https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/20082/1/LadainhasCorridosCapoeira.pdf 22. Roda de capoeira recebe título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade - CNM, https://cnm.org.br/comunicacao/noticias/roda-de-capoeira-recebe-t%C3%ADtulo-de-patrim%C3%B4nio-cultural-imaterial-da-humanidade 

23. A CAPOEIRA ANGOLA COMO ESPAÇO DE RESISTÊNCIA ..., https://periodicos.ufs.br/pontadelanca/article/download/12490/10752/40321

24. Estudo Sobre Toques de Berimbau | Portal Capoeira, https://portalcapoeira.com/capoeira/publicacoes-e-artigos/estudo-sobre-toques-de-berimbau/ 

25. A física das oscilações mecânicas em instrumentos musicais: exemplo do berimbau, https://www.scielo.br/j/rbef/a/DqDwhHCJy5jB5mxRHmtsdsS/?lang=pt 

26. Tópico 10 | Curso de Berimbau | Como colocar o arame no Berimbau? BÔNUS - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=OtoD8xXnO1g 

27. Roda de Capoeira: Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=y_tqFc6zUE8 

28. Gingando contra silêncios e invisibilidades: de capoeiristas do século XXI à Guerra do Paraguai - TEDE, https://www.tede.ufam.edu.br/bitstream/tede/11039/5/TESE_LeandroSantos_PPGAS.pdf


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