RELATÓRIO TÉCNICO: A DIALÉTICA DA GINGA.
Uma Análise Historiográfica e Sociocultural da Evolução da Capoeira.
Pesquisador: Cristiano Dos Santos Rocha.
São Paulo/SP. Janeiro de 2026.
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Sumário:
1.A Dialética da Ginga: Uma Análise Historiográfica e Sociocultural da Evolução da Capoeira.
2.Origens e Resistência: O DNA Centro-Africano e a Gênese Colonial.
2.1 As Matrizes Africanas: Do N'golo à Bassúla.
2.2 A Senzala como Laboratório e o Quilombo como Fortaleza.
3.Período de Marginalização: A Capoeira no Banco dos Réus e a Resistência das Maltas.
3.1 O Código Penal de 1890: A Criminalização da Agilidade.
4.Dualidade dos Mestres: Estruturação e Legitimidade Social.
4.1Capoeira Angola: Mestre Pastinha e a Filosofia da Ancestralidade.
4.2 Capoeira Regional: Mestre Bimba e a Modernização do Combate.
5.Capoeira Contemporânea: Fusão, Globalização e Patrimônio Mundial.
5.1 O Estilo Misto e a Expansão Global.
5.2 O Reconhecimento da UNESCO.
6.Adaptação e Futuro: Musicalidade, Inclusão e o Século XXI.
6.1 A Hierarquia do Berimbau e a Musicalidade.
6.2 Graduações e Inclusão Social.
7.Conclusão: A Capoeira como Símbolo da Identidade Nacional.
8.sobre-o-pesquisador.
9.referências-bibliográficas.
10.Referências citadas.
1.A Dialética da Ginga: Uma Análise Historiográfica e Sociocultural da Evolução da Capoeira.
A capoeira, em sua essência mais profunda, transcende a mera definição de atividade física ou prática esportiva, configurando-se como um fenômeno civilizatório afro-brasileiro que encapsula séculos de resistência, negociação cultural e afirmação identitária. Como historiador e especialista na cultura de matriz africana, este relatório propõe uma imersão analítica na trajetória desta arte, desde os seus primórdios envoltos nas brumas da diáspora banto até a sua consagração como um dos pilares da diplomacia cultural brasileira no século XXI. A análise segmenta-se através das eras de repressão, estruturação e globalização, examinando como a mandinga — a astúcia necessária para a sobrevivência — e o axé — a força vital que emana da roda — moldaram uma prática que é, simultaneamente, um jogo de libertação e uma filosofia de vida.
2.Origens e Resistência: O DNA Centro-Africano e a Gênese Colonial.
O debate historiográfico sobre a origem da capoeira divide-se em duas vertentes: nacionalista e afrocêntrica.
A teoria nacionalista, proeminente no século XX, defende que a capoeira é uma criação genuinamente brasileira, surgida na escravidão (em senzalas e quilombos) como uma resposta direta e engenhosa à opressão. Interpretada como um método de luta e resistência disfarçado de dança e jogo, permitia o treinamento marcial para fuga e defesa. Embora reconheça influências africanas, a vertente argumenta que a síntese final e o formato consolidado no Brasil a tornam uma manifestação cultural sui generis, ligada à luta pela liberdade em solo brasileiro.
A perspectiva afrocêntrica defende que a capoeira é a continuidade e resignificação brasileira de práticas corporais, rituais e espirituais da África Central, especialmente de Angola e do Congo, berço dos povos banto traficados. Essa tese aponta semelhanças com jogos e rituais africanos, como o N’golo (dança da zebra), sugerindo que a capoeira sobreviveu à travessia atlântica, adaptando-se à escravidão, mas mantendo um núcleo identitário e cinético africano. Essa visão enfatiza a agência cultural africana na preservação e recriação de suas tradições.
As vertentes nacionalista (resistência contra opressão) e afrocêntrica (herança africana banto) complexificam o debate sobre a história da capoeira. A historiografia atual busca uma síntese, reconhecendo as raízes africanas e o papel decisivo do ambiente brasileiro (senzalas e quilombos) em sua formação final.
2.1 As Matrizes Africanas: Do N'golo à Bassúla.
Estudos contemporâneos corroboram a existência de diversas práticas rituais na África Central que compartilham uma gramática motora com a capoeira. O exemplo mais emblemático é o N'golo, ou "Dança da Zebra", um ritual de passagem praticado pelos povos Mucupes e Nhaneca-Humbi no sul de Angola. No N'golo, os jovens guerreiros competiam em uma arena circular, utilizando golpes de pernas para atingir o rosto do oponente, simulando a defesa de uma zebra contra predadores. O vencedor do certame conquistava o direito de escolher sua noiva sem o pagamento do dote (alambamento).
Contudo, a capoeira brasileira não é uma réplica direta do N'golo, mas sim uma síntese de várias manifestações. Entre elas, destaca-se a Bassúla, uma luta de desequilíbrio praticada por pescadores em Luanda; a Kambangula, um jogo de mãos executado ao som de palmas e cantos; e o Omundiú, focado na destreza das pernas. A política colonial de misturar diferentes etnias nos navios negreiros e nas propriedades rurais — visando impedir a formação de núcleos solidários — paradoxalmente forçou uma amálgama dessas práticas, gerando uma linguagem corporal comum que servia como código secreto de resistência.
2.2 A Senzala como Laboratório e o Quilombo como Fortaleza.
No ambiente da senzala, a capoeira desenvolveu sua característica mais fascinante: a camuflagem ritual. Para os senhores de engenho e feitores, os movimentos de agilidade e os saltos acompanhados por percussão eram interpretados como folguedos inofensivos ou danças religiosas. No entanto, sob o véu da música e da ludicidade, os escravizados treinavam uma técnica de combate letal, capaz de incapacitar um adversário armado apenas com o uso das pernas, cabeçadas e rasteiras.
A transição para os quilombos elevou a capoeira ao status de ferramenta de guerrilha. Em comunidades como o Quilombo dos Palmares, a agilidade do capoeira permitia o enfrentamento de tropas oficiais através de táticas de emboscada em terrenos acidentados. O próprio vocábulo "capoeira" — do tupi caá-puêra (mata que já foi) — alude às clareiras de vegetação rasteira onde os fugitivos frequentemente combatiam seus perseguidores, estabelecendo uma conexão indelével entre a arte e a geografia da liberdade.
3.Período de Marginalização: A Capoeira no Banco dos Réus e a Resistência das Maltas.
A abolição da escravidão em 1888 não garantiu a plena integração social e econômica dos negros libertos. O subsequente período republicano (1889) intensificou a exclusão e a repressão. Influenciado por ideais positivistas e higienistas, o projeto republicano de "modernização" e "europeização" via as manifestações culturais de matriz africana com hostilidade, considerando-as "entraves ao progresso nacional" e à imagem cosmopolita desejada pela elite.
Com a marginalização e a migração em massa de recém-libertos para os centros urbanos em busca de sustento negado, a capoeira — antes ferramenta de resistência — virou alvo central da repressão estatal. Praticada por ex-escravizados desempregados e em condições precárias (principalmente no Rio de Janeiro, Salvador e Recife), a arte-luta se tornou símbolo de desordem e ameaça à nova ordem urbana, sendo usada para autodefesa, impor respeito ou, ocasionalmente, em delitos e conflitos de rua.
O Código Penal de 1890, em seu artigo 402, criminalizou a capoeira como parte de um aparato repressivo. O objetivo era suprimir uma identidade cultural, equiparando capoeiristas, libertos e negros à figura do "vadio" e "desordeiro". A repressão policial sistemática forçou a capoeira à clandestinidade e ao disfarce em folguedos menos ostensivos, o que, ironicamente, garantiu sua sobrevivência e evolução como um legado de resiliência cultural afro-brasileira.
3.1 O Código Penal de 1890: A Criminalização da Agilidade.
A repressão oficial foi institucionalizada através do Código Penal de 1890, especificamente no Capítulo XIII, que tratava "Dos Vadios e Capoeiras". O Artigo 402 estabelecia penas de prisão de dois a seis meses para quem praticasse "nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação de capoeiragem". Em caso de reincidência, a pena dobrava e o indivíduo poderia ser deportado para o arquipélago de Fernando de Noronha, que funcionava como uma colônia penal temida pelos praticantes.
Esta legislação não era apenas uma medida de segurança pública, mas uma ferramenta de controle social e racial. O termo "vadiagem" era frequentemente utilizado de forma vaga para justificar a prisão de negros e pobres que não possuíam emprego formal, em um contexto onde o mercado de trabalho era extremamente restrito para os recém-libertos. A capoeira era vista como uma "arte perniciosa" devido à sua capacidade de ser fatal, permitindo que indivíduos desarmados enfrentassem a polícia e as autoridades com eficácia.
3.2 As Maltas do Rio de Janeiro: Nagoas e Guaiamus.
Durante a clandestinidade na República Velha, a capoeira no Rio de Janeiro se reorganizou. Capoeiristas formaram as "maltas", gangues territoriais altamente organizadas que controlavam bairros específicos como milícias informais.
As maltas de capoeira possuíam estrutura interna complexa, hierarquias definidas, códigos de honra e rituais próprios. Além da luta, eram redes de apoio e meios de ascensão social.
No Rio, destacaram-se as poderosas maltas Nagoas e Guaiamus. A profunda rivalidade histórica entre elas resultava em intensos confrontos de rua, muitas vezes escalando para batalhas campais pelo domínio das áreas centrais.
A rivalidade atingia seu auge durante as eleições da República Velha. As maltas de capoeiristas eram cooptadas por facções políticas e candidatos, atuando como cabos eleitorais violentos para intimidar eleitores, garantir votos e, muitas vezes, gerar tumultos para influenciar os resultados dos pleitos, demonstrando a perigosa ligação da capoeira com a política da época.
A manutenção da capoeira viva na clandestinidade dependia de um sistema de vigilância comunitária. Meninos conhecidos como "caxinguelês" ou "carrapetas" eram posicionados em pontos estratégicos para avisar sobre a aproximação das patrulhas policiais comandadas por figuras como Sampaio Ferraz, o chefe de polícia que jurou extinguir a capoeira da capital. Sampaio Ferraz utilizava táticas de repressão brutal, prendendo centenas de capoeiras em uma campanha sistemática de "higienização social". No entanto, a arte sobreviveu através da incorporação de novos elementos de disfarce e da migração de mestres para regiões onde a repressão era menos intensa, como a Bahia, que se tornaria o celeiro da preservação dos fundamentos ancestrais.
4.A Dualidade dos Mestres: Estruturação e Legitimidade Social.
A Capoeira transformou-se de prática marginalizada e criminalizada em um símbolo vibrante da identidade cultural brasileira, principalmente na primeira metade do século XX. Essa legitimação foi impulsionada pelo legado de dois grandes mestres baianos que, embora partilhassem a mesma ancestralidade, divergiram na forma de garantir a sobrevivência e a evolução da luta-dança.
Esta dualidade de caminhos é o pilar para compreender a riqueza e a complexidade da capoeira contemporânea:
Capoeira Angola (Mestre Pastinha): Esta vertente se concentrou na preservação das formas mais tradicionais e rituais da capoeira, priorizando o "jogo de dentro", o ritmo lento, a malícia, e a conexão profunda com os elementos culturais e filosóficos africanos. A Angola buscou manter a essência da capoeira como a conheciam os antigos, resistindo à formalização excessiva para preservar seu caráter de manifestação popular e resistência.
Capoeira Regional (Mestre Bimba): Em contraste, esta escola buscou uma "regionalização" e modernização da arte. Mestre Bimba, com o objetivo de retirar a capoeira da clandestinidade e do estigma social, sistematizou seus movimentos, introduziu uma metodologia de ensino formal (a primeira academia de capoeira registrada) e a integrou a um currículo mais atlético, com ênfase na eficiência marcial e na performance física. Essa abordagem foi fundamental para que a capoeira fosse vista não apenas como uma vadiagem, mas como uma arte marcial brasileira legítima.
Essa convivência e, por vezes, tensão entre a Capoeira Angola e a Capoeira Regional (e as diversas escolas que delas derivam) é o que define a complexidade da capoeira contemporânea. Juntas, as duas vertentes asseguraram a salvaguarda da capoeira: uma mantendo viva a chama da tradição e da ancestralidade, e a outra garantindo sua aceitação social e sua difusão em escala global.
4.1 Capoeira Angola: Mestre Pastinha e a Filosofia da Ancestralidade.
Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889-1981) é o principal guardião da Capoeira Angola. Aprendeu a arte com Benedito para autodefesa. Em 1941, assumiu o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA) no Pelourinho para preservar os fundamentos da "capoeira mãe".
Pastinha via a capoeira como um "intelectualismo visionário". A Capoeira Angola por ele ensinada foca na ludicidade, no jogo lento e cadenciado com "mandinga" (simulação), na bateria completa de instrumentos (três berimbaus, pandeiros, atabaque, agogô e reco-reco) e na importância da "ladainha" (canto solo). Ele introduziu o uniforme amarelo e preto e defendia a ética, educação e hierarquia.
Sua filosofia baseava-se na experiência comunal e na consciência coletiva afrodescendente, similar ao conceito de Ubuntu. Pastinha morreu pobre e cego, mas seu legado foi crucial para impedir a transformação da capoeira em mero esporte.
4.2 Capoeira Regional: Mestre Bimba e a Modernização do Combate.
Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado, 1899-1974) revolucionou a capoeira, que ele via perdendo a eficácia marcial e se tornando "folclórica". Em 1932, fundou o "Centro de Cultura Física Regional", introduzindo reformas cruciais.
Suas inovações incluíram:
Estrutura: Criou as "Sequências de Bimba" para aprendizado estruturado e rápido.
Disciplina e Imagem: Exigiu uniformes brancos e comprovante de trabalho/estudo para desvincular a capoeira da vadiagem.
Reconhecimento: Incorporou golpes do Batuque e estabeleceu rituais (Batizado, Cintura Desprezada).
Legitimidade: A apresentação a Getúlio Vargas em 1953, que a declarou o "único esporte verdadeiramente nacional", resultou na descriminalização da capoeira e abriu a prática para a classe média, conferindo-lhe legitimidade social inédita.
5.Capoeira Contemporânea: Fusão, Globalização e Patrimônio Mundial.
A década de 1970 marcou a virada da capoeira, impulsionando seu reconhecimento global. Essa expansão foi catalisada pela emigração estratégica de mestres, que atuaram como embaixadores culturais, adaptando a prática em novos territórios. Simultaneamente, a formação de grandes grupos e organizações transnacionais deu à capoeira uma estrutura formalizada e alcance logístico. Essas redes padronizaram o ensino, organizaram eventos internacionais e mantiveram a coesão identitária global.
A Capoeira Contemporânea surge como síntese e, por vezes, conflito, integrando a objetividade e o ritmo acelerado da Capoeira Regional (Mestre Bimba) com a malícia, o jogo cadenciado e o ritualismo da Capoeira Angola (Mestre Pastinha).
A busca pela "síntese" na Capoeira Contemporânea, embora a torne a modalidade mais difundida, gera tensão entre a modernização e a preservação cultural. Essa diversidade interna leva alguns grupos a priorizar o aspecto acrobático e esportivo em detrimento da ancestralidade e musicalidade, enquanto outros buscam um equilíbrio com as raízes (Regional e Angola). A ascensão global da capoeira é, portanto, um fenômeno complexo de adaptação e redefinição identitária.
5.1 O Estilo Misto e a Expansão Global.
A Capoeira Contemporânea não possui um fundador único, mas é o resultado de grupos (como o Senzala, Abadá-Capoeira, Cordão de Ouro e outros) que adotaram a organização técnica da Regional — com sistemas de graduação por cordas coloridas — enquanto tentavam reincorporar a musicalidade e os fundamentos da Angola. Atualmente, estima-se que a capoeira seja praticada em mais de 160 países, tornando-se uma ferramenta de soft power do Brasil e um meio de ensino da língua portuguesa em todo o mundo.
Essa globalização trouxe novos desafios e tensões:
Turismo de Artes Marciais: O surgimento de "peregrinos da capoeira" que viajam ao Brasil em busca de autenticidade, o que gera discussões sobre a comercialização de uma arte que nasceu da resistência à opressão.
Universalidade vs. Origem: A prática por pessoas de diferentes etnias e nacionalidades levanta questões sobre a preservação das raízes afro-brasileiras e o risco de diluição cultural.
Profissionalização: A tentativa de transformar o mestre de capoeira em um profissional de educação física reconhecido pelo Estado, em oposição à figura tradicional do mestre como detentor de um saber ancestral não formal.
5.2 O Reconhecimento da UNESCO.
Em 2014, a UNESCO reconheceu a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, atestando seu valor inestimável. Este reconhecimento global não se limitou à luta/arte marcial, mas destacou a capoeira como um veículo de promoção do respeito mútuo, inclusão social e celebração da diversidade étnica brasileira.
Para a organização internacional, a Roda de Capoeira se estabelece como um verdadeiro espaço democrático e inclusivo. Dentro desse círculo sagrado, as barreiras sociais e as distinções hierárquicas são temporariamente suspensas e diluídas em favor de uma interação mais pura e igualitária. A idade, o gênero, a origem social e a condição econômica perdem sua relevância na roda, dando lugar ao diálogo corporal e musical – um intercâmbio comunicativo único, ritmado pelo som do berimbau, atabaque e pandeiro, e pelas vozes que entoam os cânticos. A roda, portanto, não é apenas o palco da ginga e dos golpes, mas um microcosmo de respeito e convivência harmoniosa, reforçando os laços comunitários e transmitindo o legado de resistência e resiliência cultural forjado ao longo da história.
6.Adaptação e Futuro: Musicalidade, Inclusão e o Século XXI.
Para continuar crescendo e se adaptando no século XXI, a capoeira brasileira empreendeu uma significativa reestruturação em seus sistemas de ensino e metodologias de treinamento. Essa evolução permitiu que a arte-luta ampliasse drasticamente seu impacto social e sua relevância cultural em escala global.
Apesar da modernização e da expansão para novos contextos urbanos e digitais, a musicalidade da capoeira permanece como o seu elemento mais vital e aglutinador. É a bateria, composta por berimbaus (o arco musical essencial), atabaques (tambores) e pandeiros, juntamente com o canto e o coro, que garante a manutenção do axé — a energia vital, a força espiritual e a tradição — e dos fundamentos da capoeira.
Essa musicalidade não é apenas acompanhamento; ela é a força motriz que dita o ritmo, a intensidade e o estilo dos movimentos na roda. É através dela que os conhecimentos ancestrais, a filosofia de vida, os códigos de ética e a história da resistência e da ancestralidade africana e afro-brasileira são transmitidos de forma orgânica. Assim, mesmo em ambientes contemporâneos, desvinculados de seu contexto histórico original nas senzalas e quilombos, o jogo de capoeira mantém sua essência, conectando praticantes modernos às raízes profundas da tradição. A reestruturação, portanto, consolidou a capoeira não apenas como uma arte marcial ou dança, mas como um poderoso veículo de preservação cultural e inclusão social.
6.1 A Hierarquia do Berimbau e a Musicalidade.
O berimbau não é apenas um instrumento de acompanhamento; ele é o "soberano" da roda. Sua constituição física — verga, arame, cabaça e caxixi — é considerada sagrada em muitos grupos.
A hierarquia dos sons dita a dinâmica da luta:
Berimbau Gunga: Possui o som mais grave e é tocado pela pessoa mais graduada da roda. Ele estabelece o ritmo base e tem a autoridade para começar ou interromper o jogo.
Berimbau Médio: Complementa o Gunga com um ritmo invertido, mantendo a cadência.
Berimbau Viola: É o instrumento das improvisações. Com seu som agudo, o "tocador de viola" faz os repiques e floreios musicais, estimulando a agilidade dos capoeiristas.
A evolução da musicalidade também passou pela indústria fonográfica, com o lançamento de CDs e plataformas digitais que disseminam as cantigas e os toques (como São Bento Grande, Cavalaria, Idalina e Iúna) para estudantes em todo o globo.
6.2 Graduações e Inclusão Social.
Diferente do período de Pastinha e Bimba, onde a graduação era informal ou baseada em lenços de seda, a capoeira contemporânea adotou sistemas complexos de cordéis baseados nas cores da bandeira brasileira ou em escalas naturais. Embora criticado por alguns puristas, esse sistema permitiu uma organização pedagógica que facilitou a entrada da capoeira nas escolas e universidades.
A capoeira hoje atua como um instrumento de inclusão social em diversos níveis:
Educação Integral: Inserida na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a capoeira é utilizada para trabalhar o desenvolvimento motor, a inteligência corporal e a consciência histórica dos alunos.
Leis de Valorização: As Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 tornaram obrigatório o ensino da história afro-brasileira, utilizando a capoeira como um dos principais conteúdos para combater o racismo e o preconceito dentro do ambiente escolar.
Projetos de Cidadania: Programas governamentais e de ONGs utilizam a roda de capoeira como um espaço de acolhimento e formação para a cidadania em comunidades vulneráveis, resgatando a função original da arte como ferramenta de empoderamento.
7.Conclusão: A Capoeira como Símbolo da Identidade Nacional.
A capoeira é mais que esporte ou dança; sua trajetória é a crônica de uma sobrevivência improvável. Nascida na escravidão, foi uma ferramenta forjada para a liberdade, onde escravizados mascaravam a luta em dança e música, ludibriando a opressão. Essa prática de resistência física era o gérmen da insubmissão cultural.
Após a abolição, a capoeira enfrentou criminalização sistemática pelas elites republicanas, que a viam como desordem. Incluída no Código Penal de 1890, foi marginalizada, exigindo de seus praticantes clandestinidade e adaptação cultural ainda mais intrincada.
A virada do século XX, com mestres como Bimba e Pastinha, tirou a Capoeira da marginalidade, sistematizando-a nas vertentes Regional e Angola. Essa resiliência cultural única a elevou de "problema social" a símbolo nacional, iniciando sua jornada para a aclamação global como patrimônio imaterial. A Capoeira é uma linguagem viva, adaptável e global, que continua a produzir novos sentidos de brasilidade.
Central na identidade cultural brasileira, a capoeira é um microcosmo da miscigenação e diáspora africana. A roda é o ponto de encontro entre o corpo e o espírito, harmonizando a fisicalidade com musicalidade e filosofia. É a união entre a técnica marcial e a poesia cantada, narrando luta e superação.
A filosofia da capoeira reside na mandinga, a astúcia para parecer o que não é. Com a mandinga, o capoeirista interpreta o mundo, antecipa golpes, esquiva-se de dificuldades e combate a injustiça. O axé da roda preserva a memória dos quilombos e projeta essa ancestralidade. A capoeira molda o Brasil, transformando dor em arte e conflito em jogo.
A capoeira prova que a liberdade é um movimento contínuo, uma busca incessante na sua ginga perpétua. É uma ginga eterna entre o passado e o potencial, um ciclo ininterrupto de luta, arte e reinvenção. Ela espelha a alma brasileira: complexa, resiliente e em constante movimento.
8. Sobre o Pesquisador.
Cristiano Dos Santos Rocha é pesquisador registrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Conhecido na capoeiragem como Instrutor Alemão, é aluno formado pelo eterno Mestre Vovô. Atualmente, é filiado à Associação de Capoeira Ilha de Itapuã - Organizações Onças, mantendo suas raízes e fundamentos na tradicional Escola de Capoeira Casa do Vovô - Itabuna/BA.
9. Referências Bibliográficas.
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IPHAN. Dossiê Iphan 12: A Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira. Brasília: IPHAN, 2013.
ITAPUÃ, Mestre. Capoeira Regional: A escola de Mestre Bimba. Salvador: EDUFBA, 2009.
PASTINHA, Vicente Ferreira. Capoeira Angola. Salvador: Escola Gráfica de Nossa Senhora de Loreto, 1965.
REIS, Letícia Vidor de Sousa. O mundo de pernas para o ar: a capoeira no Brasil. São Paulo: Publisher Brasil, 1997.
SILVA, H. L. Musicalidade e instrumentos da Capoeira: referências afro. Dissertação de Mestrado, UFC, 2023.
UNESCO. Capoeira circle - Intangible Heritage Representative List. Paris: UNESCO, 2014.
VIEIRA, Luiz Renato. O jogo da capoeira: corpo e cultura popular no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Relatório finalizado em São Paulo, 2026.
Referências citadas.
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2. DA CRIMINALIZAÇÃO NO CÓDIGO PENAL DE ... - publicaDireito, http://publicadireito.com.br/artigos/?cod=7de47452d56d59cf
3. Contribuições da capoeira angola de Mestre ... - Revista UEG, https://www.revista.ueg.br/index.php/territorial/article/view/16594/11449
4. CAPOEIRA ANGOLA: FILOSOFIA DO SABER POPULAR1 Habina ..., https://repositorio.unilab.edu.br/jspui/bitstream/123456789/5317/3/2023_arti_habinananque.pdf 5. Reflexões sobre o surgimento da capoeira no Brasil: um olhar sobre a história, https://www.efdeportes.com/efd165/reflexoes-sobre-o-surgimento-da-capoeira-no-brasil.htm
6. Da Criminalização à Patrimônio Cultural: uma Análise da História ..., https://periodicos.unisa.br/index.php/veredas/article/download/284/396/2159
7. A Capoeira como Escola de Ofício, https://repositorio.unesp.br/bitstreams/21684acd-93ea-4c30-83ce-196cb4ef0021/download
8. 1890 código penal - Linha De Cor, https://www.linhadecor.com/verbetes/ano_1890/verbete_5 9. Gangues do Rio de Janeiro - Blog do Arnoni, https://blogdorosuca.files.wordpress.com/2011/02/gangues-do-rio-de-janeiro.pdf
10. Mestre Pastinha | Anga Capoeira, https://www.anga-capoeira.com/mestre-pastinha
11. Quem foi Mestre Bimba, criador da capoeira regional - MultiRio, https://multi.rio/index.php/noticias/16849-quem-foi-mestre-bimba,-criador-da-capoeira-regional 12. Mestre Bimba - Capoeira Online, https://capoeira.online/history/mestres/mestre-bimba/
13. Tudo sobre a Capoeira: Cultura na Arte da Dança e da Luta - BlaBlaBlog, https://blog.blablacar.com.br/curiosidades/capoeira
14. Cultivating capoeira: tensions in an Afro-Brazilian art 'gone global ..., https://mmblatinamerica.blogs.bristol.ac.uk/2022/01/24/cultivating-capoeira-tensions-in-an-afro-brazilian-art-gone-global/
15. Capoeira Circle | Intangible Heritage - UNESCO Multimedia Archives, https://www.unesco.org/archives/multimedia/document-3696
16. hermetac leite dos santos - Repositório Institucional UFC - Universidade Federal do Ceará, https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/75977/3/2023_dis_hlsantos.pdf
17. A prática da capoeira no ambiente escolar para a formação integral do aluno: uma revisão sistemática - Dialnet, https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8766548.pdf
18. Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba, https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/4986/1/capoeira%20regional%20-%20a%20escola%20de%20Mestre%20Bimba.pdf
19. AS MUSICALIDADES DAS RODAS DE CAPOEIRA: INVESTIGAÇÃO DE UM CAMPO DE SABER/PODER? CANTO DE ENTRADA - UFG, https://repositorio.bc.ufg.br/bitstreams/aaeb9a81-5b7e-4f55-a2c2-7018f49c46a9/download
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